Se a gente gostasse mesmo do conforto, a gente não saia da barriga da nossa Mãe!? Mas a gente nasce, a gente tem vontades, desejos, a gente é um bicho... e isso é tão bonito.
(Mallu Magalhães)
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
sábado, 22 de dezembro de 2012
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Titia
Daggo, o Pai do Ano! Muito feliz, meu irmão será Pai, e segundo ele mesmo me disse, fiquei pra Titia. Essa criança terá a Tia mais feliz que ela já conheceu na vida! Ô notícia boa! Parabéns ao lindo casal Daggo e Marcela! Desejo muitas felicidades e saúde sempre!
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
domingo, 9 de dezembro de 2012
sábado, 8 de dezembro de 2012
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
(de) coração
Li em algum lugar que há uma regra de decoração que merece ser obedecida:
para onde quer que se olhe, deve haver algo que nos faça feliz.
(Martha Medeiros)
domingo, 2 de dezembro de 2012
azul
você que é feito de azul, me deixa morar nesse azul
.................
a gente deixa o sol bater pra crescer, pra quem sabe cultivar
.................
Acordei Elis... com amor pr'aquele que é sempre sincero no gesto, no olhar, no sorriso, no aperto de mão, no abraço, na voz, no coração. Meu amor é teu.
sábado, 1 de dezembro de 2012
arte
O texto pronto do caderno, não será publicado na íntegra aqui. Fiquei tímida. É que ontem, ou melhor hoje... ficou confuso, né?!
Pois é, hoje é dia 02.12.12, dia que venho aqui aprimorar o que devia ter feito ontem. Mas estava um pouco cansada... e ando numa ansiedade louca de final de ano. E toda essa "maluquice" de final do mundo, deixa a gente um tanto, quanto 'disponível' pra vida e propensa, aberta para os acontecimentos.
Além de trabalhar com arte e caminhar com a dança. Sou também uma 'boa' consumidora, assisto muita coisa, prefiro por recomendação. E ontem, dia 01.12.2012 fui assistir um lindo trabalho artístico. E cheguei em casa bastante atordoada com toda a informação, e presença do trabalho. Estava sem luz por aqui, o que no começo achei ruim; mas depois achei ótimo, porque o que eu precisava era escrever sobre aquilo tudo que estava em mim, botar pra fora, canalizar. E depois descansar. Foi o que eu fiz.
Aqui embaixo trechos do texto no caderno:
Pequenas histórias sobre Pessoas e Lugares
Aquilo que transborda, que me transborda. Que me faz chorar de alegria, que me faz sentir viva. Essa semana estive muito com a frase do Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta, em pensamentos. Reformulo e complemento, a arte existe porque a vida não dá conta da gente.
Dia de Micheline Torres e toda a sua força e bravura, e todo seu olhar, sua dança, seu dançar, sua arte, sua voz, seu encantar. Suas grandes, muito grandes, enormes histórias para um mar de possibilidades.
Pois é, hoje é dia 02.12.12, dia que venho aqui aprimorar o que devia ter feito ontem. Mas estava um pouco cansada... e ando numa ansiedade louca de final de ano. E toda essa "maluquice" de final do mundo, deixa a gente um tanto, quanto 'disponível' pra vida e propensa, aberta para os acontecimentos.
Além de trabalhar com arte e caminhar com a dança. Sou também uma 'boa' consumidora, assisto muita coisa, prefiro por recomendação. E ontem, dia 01.12.2012 fui assistir um lindo trabalho artístico. E cheguei em casa bastante atordoada com toda a informação, e presença do trabalho. Estava sem luz por aqui, o que no começo achei ruim; mas depois achei ótimo, porque o que eu precisava era escrever sobre aquilo tudo que estava em mim, botar pra fora, canalizar. E depois descansar. Foi o que eu fiz.
Aqui embaixo trechos do texto no caderno:
Pequenas histórias sobre Pessoas e Lugares
Aquilo que transborda, que me transborda. Que me faz chorar de alegria, que me faz sentir viva. Essa semana estive muito com a frase do Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta, em pensamentos. Reformulo e complemento, a arte existe porque a vida não dá conta da gente.
Dia de Micheline Torres e toda a sua força e bravura, e todo seu olhar, sua dança, seu dançar, sua arte, sua voz, seu encantar. Suas grandes, muito grandes, enormes histórias para um mar de possibilidades.
R . I . S . O
Desbravadora
Sua vontade de ajudar os menos afortunados e sua compaixão pelas pessoas te inspira diariamente.
Você é idealista e apaixonada pelo trabalho, pela vida e pelo potencial das pessoas.
Você nasceu para inspirar, incentivar e motivar. Você tem fortes instintos psíquicos, que são muito intuitivos e hábeis em interpretar a linguagem corporal dos outros.
Planos de carreira:
O trabalho social, ensino, relações públicas, conselheiros e especialistas em recursos humanos são todas as carreiras que, naturalmente, constroem um espírito de compaixão com as pessoas.
.........
Fiz o teste do yahoo (e me emocionei): http://br.financas.yahoo.com/noticias/fa%C3%A7a-teste-encontre-c%C3%B3digo-milion%C3%A1rio-160006145.html
Sua vontade de ajudar os menos afortunados e sua compaixão pelas pessoas te inspira diariamente.
Você é idealista e apaixonada pelo trabalho, pela vida e pelo potencial das pessoas.
Você nasceu para inspirar, incentivar e motivar. Você tem fortes instintos psíquicos, que são muito intuitivos e hábeis em interpretar a linguagem corporal dos outros.
Planos de carreira:
O trabalho social, ensino, relações públicas, conselheiros e especialistas em recursos humanos são todas as carreiras que, naturalmente, constroem um espírito de compaixão com as pessoas.
.........
Fiz o teste do yahoo (e me emocionei): http://br.financas.yahoo.com/noticias/fa%C3%A7a-teste-encontre-c%C3%B3digo-milion%C3%A1rio-160006145.html
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
amor
ela estava pondo sobre si mesma alguém / esse alguém era exatamente o que ela não era (de vez em quando) / ela as vezes gostava de ser outro alguém (também)
terça-feira, 27 de novembro de 2012
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
a relação
por Martha Medeiros
A melhor versão de nós mesmos
Alguns relacionamentos são produtivos e felizes. Outros são limitantes e inférteis. Infelizmente, há de ambos os tipos, e de outros que nem cabe aqui exemplificar. O cardápio é farto. Mas o que será que identifica um amor como saudável e outro como doentio? Em tese, todos os amores deveriam ser benéficos, simplesmente por serem amores.
Mas não são. E uma pista para descobrir em qual situação a gente se encontra é se perguntar que espécie de mulher e que espécie de homem a sua relação desperta em você. Qual a versão que prevalece?
A pessoa mais bacana do mundo também tem um lado perverso. E a pessoa mais arrogante pode ter dentro de si um meigo. Escolhemos uma versão oficial para consumo externo, mas os nossos eus secretos também existem e só estão esperando uma provocação para se apresentarem publicamente. A questão é perceber se a pessoa com quem você convive ajuda você a revelar o seu melhor ou o seu pior.
Você convive com uma mulher tão ciumenta que manipula para encarcerar você em casa, longe do contato com amigos e familiares, transformando você num bicho do mato? Ou você descobriu através da sua esposa que as pessoas não mordem e que uma boa rede de relacionamentos alavanca a vida?
Você convive com um homem que a tira do sério e faz você virar a barraqueira que nunca foi? Ou convive com alguém de bem com a vida, fazendo com que você relaxe e seja a melhor parceria para programas divertidos?
Seu marido é tão indecente nas transações financeiras que força você a ser conivente com falcatruas?
Sua esposa é tão grosseira com os outros que você acaba pagando micos pelo simples fato de estar ao lado dela?
Seu noivo é tão calado e misterioso que transforma você numa desconfiada neurótica, do tipo que não para de xeretar o celular e fazer perguntas indiscretas?
Sua namorada é tão exibida e espalhafatosa que faz você agir como um censor, logo você que sempre foi partidário do “cada um vive como quer”?
Que reações imprevistas seu amor desperta em você? Se somos pessoas do bem, queremos estar com alguém que não desvirtue isso, ao contrário, que possibilite que nossas qualidades fiquem ainda mais evidentes. Um amor deve servir de trampolim para nossos saltos ornamentais, não para provocar escorregões e vexames.
O amor danoso é aquele que, mesmo sendo verdadeiro, transforma você em alguém desprezível a seus próprios olhos. Se a relação em que você se encontra não faz você gostar de si mesmo, desperta sua mesquinhez, rabugice, desconfiança e demais perfis vexatórios, alguma coisa está errada. O amor que nos serve e nos faz evoluir é aquele que traz à tona a nossa melhor versão.
..............
* Faz tempo que não publico Martha Medeiros por aqui.
A melhor versão de nós mesmos
Alguns relacionamentos são produtivos e felizes. Outros são limitantes e inférteis. Infelizmente, há de ambos os tipos, e de outros que nem cabe aqui exemplificar. O cardápio é farto. Mas o que será que identifica um amor como saudável e outro como doentio? Em tese, todos os amores deveriam ser benéficos, simplesmente por serem amores.
Mas não são. E uma pista para descobrir em qual situação a gente se encontra é se perguntar que espécie de mulher e que espécie de homem a sua relação desperta em você. Qual a versão que prevalece?
A pessoa mais bacana do mundo também tem um lado perverso. E a pessoa mais arrogante pode ter dentro de si um meigo. Escolhemos uma versão oficial para consumo externo, mas os nossos eus secretos também existem e só estão esperando uma provocação para se apresentarem publicamente. A questão é perceber se a pessoa com quem você convive ajuda você a revelar o seu melhor ou o seu pior.
Você convive com uma mulher tão ciumenta que manipula para encarcerar você em casa, longe do contato com amigos e familiares, transformando você num bicho do mato? Ou você descobriu através da sua esposa que as pessoas não mordem e que uma boa rede de relacionamentos alavanca a vida?
Você convive com um homem que a tira do sério e faz você virar a barraqueira que nunca foi? Ou convive com alguém de bem com a vida, fazendo com que você relaxe e seja a melhor parceria para programas divertidos?
Seu marido é tão indecente nas transações financeiras que força você a ser conivente com falcatruas?
Sua esposa é tão grosseira com os outros que você acaba pagando micos pelo simples fato de estar ao lado dela?
Seu noivo é tão calado e misterioso que transforma você numa desconfiada neurótica, do tipo que não para de xeretar o celular e fazer perguntas indiscretas?
Sua namorada é tão exibida e espalhafatosa que faz você agir como um censor, logo você que sempre foi partidário do “cada um vive como quer”?
Que reações imprevistas seu amor desperta em você? Se somos pessoas do bem, queremos estar com alguém que não desvirtue isso, ao contrário, que possibilite que nossas qualidades fiquem ainda mais evidentes. Um amor deve servir de trampolim para nossos saltos ornamentais, não para provocar escorregões e vexames.
O amor danoso é aquele que, mesmo sendo verdadeiro, transforma você em alguém desprezível a seus próprios olhos. Se a relação em que você se encontra não faz você gostar de si mesmo, desperta sua mesquinhez, rabugice, desconfiança e demais perfis vexatórios, alguma coisa está errada. O amor que nos serve e nos faz evoluir é aquele que traz à tona a nossa melhor versão.
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* Faz tempo que não publico Martha Medeiros por aqui.
domingo, 25 de novembro de 2012
sábado, 24 de novembro de 2012
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
terça-feira, 20 de novembro de 2012
sábado, 17 de novembro de 2012
felicidade
menina
amanhã de manhã
quando a gente acordar
quero te dizer que a
felicidade
vai desabar sobre os homens
amanhã de manhã
quando a gente acordar
quero te dizer que a
felicidade
vai desabar sobre os homens
terça-feira, 13 de novembro de 2012
♡
Campeche
ora cavávamos buraco na areia
pra chegar na água
ora fazíamos castelos
para nós mesmos
derrubar
ora fazíamos buracos bem grrraaannndes
juntávamos todos os pés
e cobríamos
sentados com a areia até os joelhos
nossos pés se acariciavam ali
embaixo daquela areia
de frente pra'quele mar
dentro daquela ilha
éramos ilhados
e éramos tão juntos
somos tão grrraaannndes
agora
tão longe
nossos pés ainda se encontram
em nossos sentidos
em nossas areias
em nossos castelos
no amor
do lembrar
ora cavávamos buraco na areia
pra chegar na água
ora fazíamos castelos
para nós mesmos
derrubar
ora fazíamos buracos bem grrraaannndes
juntávamos todos os pés
e cobríamos
sentados com a areia até os joelhos
nossos pés se acariciavam ali
embaixo daquela areia
de frente pra'quele mar
dentro daquela ilha
éramos ilhados
e éramos tão juntos
somos tão grrraaannndes
agora
tão longe
nossos pés ainda se encontram
em nossos sentidos
em nossas areias
em nossos castelos
no amor
do lembrar
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
domingo, 4 de novembro de 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
sábado, 27 de outubro de 2012
a dança e a voz
Então foi mais ou menos assim... a vida anda me dando voltas. Voltas boas. Me inscrevi pra participar de uma “performance”, no festival de dança... algo como o público também atua.
E lá estava eu sozinha, sentada numa cadeira tipo de diretor dentro de um teatro pequeno, não por acaso, o nome do Teatro chama Café Pequeno. Sentei, tudo escuro, no breu e de repente começo ouvir memórias sobre impressões artísticas, através das vozes de pessoas, acompanhadas por alguma luz fina, pequena que alternava entre amarelo, laranja, verde e trêmulas.
Escutava as histórias e lembrava das minhas, senti calafrios, senti meu corpo tremer, senti choro, senti riso, senti vida. Me arrepiei na maioria das vezes. Me reconheci naquelas emoções. Me identifiquei com a coragem de contar e expressar... quando a arte nos move.
Lembrei. Lembrei. Lembrei.
Agora era a minha vez de contar e era minha vez de me ouvir. Estava tocada demais, recheada de tanta emoção.
E lá fui eu e a minha voz. E lá fui eu me expressar. Vi o microfone. Vi a salinha do camarim e suas luzinhas. Artista já nasce estrela. E quis falar daquilo que eu estava sentindo. Queria falar que voz também é corpo. Queria dizer do quanto o canto me atravessa. Queria me expressar e dar vazão a toda a força que a arte propaga em mim. Queria chorar, queria sorrir.
A moça me interrompe e pede... “conte uma memória. Vou ler aqui sobre a instalação, pra você entender melhor”. Devo ter cara de dúvida? Pensei.
Recomecei... e antes pensei... memórias não são lineares... que mania de botar a vida em linha reta. Me coloquei.
Então eu tinha uns 6 anos e fui assistir um espetáculo de final de ano da escola que a minha prima, mais nova que eu dançava. Foi algo bem simples, nada de performático. Foi uma apresentação de grupo de dança. E depois daquilo eu falei pra minha Mãe que queria fazer balé. Minha Mãe me questionou... "tem certeza, filha?! será que você não quer fazer outra atividade?!”. Não. Eu não queria fazer outra atividade. A dança já tinha me encontrado.
E hoje aos 26 anos tenho mais certeza desse encontro. Dança, obrigada por me encontrar todos os dias. Obrigada por ser parte da minha vida, da minha memória, da minha voz, do meu corpo. Obrigada por ser minha companheira mais generosa.
Obrigada por fazer eu ser mais Talitta (todos os dias).
......................................
E essa escrita que me organiza.
E lá estava eu sozinha, sentada numa cadeira tipo de diretor dentro de um teatro pequeno, não por acaso, o nome do Teatro chama Café Pequeno. Sentei, tudo escuro, no breu e de repente começo ouvir memórias sobre impressões artísticas, através das vozes de pessoas, acompanhadas por alguma luz fina, pequena que alternava entre amarelo, laranja, verde e trêmulas.
Escutava as histórias e lembrava das minhas, senti calafrios, senti meu corpo tremer, senti choro, senti riso, senti vida. Me arrepiei na maioria das vezes. Me reconheci naquelas emoções. Me identifiquei com a coragem de contar e expressar... quando a arte nos move.
Lembrei. Lembrei. Lembrei.
Agora era a minha vez de contar e era minha vez de me ouvir. Estava tocada demais, recheada de tanta emoção.
E lá fui eu e a minha voz. E lá fui eu me expressar. Vi o microfone. Vi a salinha do camarim e suas luzinhas. Artista já nasce estrela. E quis falar daquilo que eu estava sentindo. Queria falar que voz também é corpo. Queria dizer do quanto o canto me atravessa. Queria me expressar e dar vazão a toda a força que a arte propaga em mim. Queria chorar, queria sorrir.
A moça me interrompe e pede... “conte uma memória. Vou ler aqui sobre a instalação, pra você entender melhor”. Devo ter cara de dúvida? Pensei.
Recomecei... e antes pensei... memórias não são lineares... que mania de botar a vida em linha reta. Me coloquei.
Então eu tinha uns 6 anos e fui assistir um espetáculo de final de ano da escola que a minha prima, mais nova que eu dançava. Foi algo bem simples, nada de performático. Foi uma apresentação de grupo de dança. E depois daquilo eu falei pra minha Mãe que queria fazer balé. Minha Mãe me questionou... "tem certeza, filha?! será que você não quer fazer outra atividade?!”. Não. Eu não queria fazer outra atividade. A dança já tinha me encontrado.
E hoje aos 26 anos tenho mais certeza desse encontro. Dança, obrigada por me encontrar todos os dias. Obrigada por ser parte da minha vida, da minha memória, da minha voz, do meu corpo. Obrigada por ser minha companheira mais generosa.
Obrigada por fazer eu ser mais Talitta (todos os dias).
......................................
E essa escrita que me organiza.
domingo, 21 de outubro de 2012
sábado, 20 de outubro de 2012
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
terça-feira, 16 de outubro de 2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
bússola
Há escolas que são gaiolas, e há escolas que são asas. O vôo não pode ser ensinado, só pode ser encorajado. – Rubem Alves
http://www.rubemalves.com.br/
http://www.rubemalves.com.br/
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
bola de meia, bola de gude
toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão
"Sou uma mulher madura
Que às vezes brinca de balanço
Sou uma criança insegura
Que às vezes usa salto alto
Sou uma mulher que balança
Sou uma criança que atura (e tolera)"
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Lua
Ela nos chegou mais ou menos assim. Não gosto muito de expor as pessoas... mas vou ter que contar. Toda criança gosta de animais de estimação. Pois é! Por alguma “carga d’agua”, nossa Mãezinha não queria que tivéssemos cachorro. Mas criança é criança, e eu e meus irmãos acabamos colecionando baratas (mortas). Uma afronta possivelmente.
Mas a Lua chegou no dia que tinha que chegar. Um casal de amigos iria trabalhar em um sítio e não poderiam levá-la. Pediram se a Mãe podia cuidar. Mãezinha mais generosa impossível, ficou com a cadela. A Lua não nos salvou de nenhum "ladrão", não fez a proteção do lar, não obedecia em nada. Era a cachorra mais avoada.
E era toda essa sua rebeldia, que fazia nossa alegria. Nativos do Campeche, sabíamos do quanto é importante não levar cachorro a praia. Prendíamos a Lua, antes de colocar o biquíni, senão ela já sabia e logo fugia, se escondia... e nos seguia.
Mesmo assim, quantas vezes deve ter ido passear na praia sozinha!? Sem que seus “donos” soubessem?! Ora cachorro não tem dono, ainda mais cachorro vira-lata. A Lua se virava. A Lua nos virava. A Lua nos acompanhava.
Lua tenha certeza que sua presença na nossa vida será inesquecível. E mais na vida da Adriana. Depois dos filhos já crescidos, já fugidos, você continuou firme. Depois de quase perder a vida para um pitbul, nos mostrou e mais uma vez a Adriana o amor, o cuidado.
Lua, Lua, Lua... toda preta. Seu rabo torto, seu andar errado. As vezes te achava uma ovelha (acho que era o Daggo que dizia). Você deixa o seu Lenin, pra Maninha, e pra mim, o Sol (não sei se sabias, mas teu filho tem dois nomes). Você deixa seu jeito doido de ser. Você deixa a sua lembrança de uma cachorra quase, quase sem esperança. Você deixa o respeito de não fazer nem cocô, nem xixi no quintal. Você deixa o trivial.
Mas a Lua chegou no dia que tinha que chegar. Um casal de amigos iria trabalhar em um sítio e não poderiam levá-la. Pediram se a Mãe podia cuidar. Mãezinha mais generosa impossível, ficou com a cadela. A Lua não nos salvou de nenhum "ladrão", não fez a proteção do lar, não obedecia em nada. Era a cachorra mais avoada.
E era toda essa sua rebeldia, que fazia nossa alegria. Nativos do Campeche, sabíamos do quanto é importante não levar cachorro a praia. Prendíamos a Lua, antes de colocar o biquíni, senão ela já sabia e logo fugia, se escondia... e nos seguia.
Mesmo assim, quantas vezes deve ter ido passear na praia sozinha!? Sem que seus “donos” soubessem?! Ora cachorro não tem dono, ainda mais cachorro vira-lata. A Lua se virava. A Lua nos virava. A Lua nos acompanhava.
Lua tenha certeza que sua presença na nossa vida será inesquecível. E mais na vida da Adriana. Depois dos filhos já crescidos, já fugidos, você continuou firme. Depois de quase perder a vida para um pitbul, nos mostrou e mais uma vez a Adriana o amor, o cuidado.
Lua, Lua, Lua... toda preta. Seu rabo torto, seu andar errado. As vezes te achava uma ovelha (acho que era o Daggo que dizia). Você deixa o seu Lenin, pra Maninha, e pra mim, o Sol (não sei se sabias, mas teu filho tem dois nomes). Você deixa seu jeito doido de ser. Você deixa a sua lembrança de uma cachorra quase, quase sem esperança. Você deixa o respeito de não fazer nem cocô, nem xixi no quintal. Você deixa o trivial.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Rancière
permear
Quero escrever algo sobre. Vou me esforçar, não prometo conseguir. Mas o que posso dizer é que dei minha caneta de presente pra ele, e inaugurei esse momento de troca de afetos através da escrita (palavra).
http://ctrlaltdanca.com/2012/09/28/coloquio-internacional-arte-estetica-e-politica-dialogos-com-jacques-ranciere-no-rio-de-janeiro/
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
(a)moral
moralismo é pagar por sexo, sem a sua esposa saber
é trair em segredo
é subjugar a condição da mulher
Para além do moralismo, há a hipocrisia. Quando não a reiteração do machismo.
é trair em segredo
é subjugar a condição da mulher
Para além do moralismo, há a hipocrisia. Quando não a reiteração do machismo.
domingo, 7 de outubro de 2012
50
+
Mc Leonardo
50050
.......................
Vovó e Freixo: dois malcriados!
por Juliana Peres
A vó Miriam (minha velha malcriada) ficou a campanha eleitoral inteira dizendo que não ia votar, que tinha mais o que fazer e não valia a pena, pois todo mundo era ladrão, apesar de achar que o Marcelo Freixo parece bom e merece o voto dela. Ontem de manhã ela disse "vou no mercado, se eu sentir vontade votarei".
Ela é orgulhosa pra admitir livremente quando muda de idéia, mas o orgulho a fez sofrer um pouco...
Quando voltou, veio rindo contando a peripécia: decidiu ir votar e não lembrava o número do Freixo. Procurava atenta o número no mar de santinhos que inundou a Praça Seca... todos 15... 15...14.. 15...22! Olhava de butuca pros santinhos que algumas moças distribuíam pra tentar ver os números... NADA DE FREIXO! "Nossa ele é muito correto mesmo!". Estava quase desistindo, quando reparou um senhor que parecia esperar por alguém na porta da Zona e se fez de criança pra ele: "Ah, queria votar, mas esqueci o número do meu candidato!"; o senhor perguntou qual era o candidato dela e quando ouviu a resposta abriu um sorriso e disse, "Ele é meu candidato também, acabei de votar nele e minha filha também está lá votando nele! O número dele é 50!". Confiante, vovó entrou, esperou, se identificou, apertou 5 + 0 + confirma e saiu rindo feliz de ter votado e rindo de si mesma por não assumir que votaria, o que a impediu de pedir pra sua neta primogênita escrever uma "colinha" pra levar na urna. De noite ao ouvirmos os resultados da apuração, ficamos tristes, mas vovó disse que tudo bem "Na próxima, ele já está mais conhecido, ele vai ganhar!". Vó é assim, se disse que vai chover... é melhor não esquecer o guarda-chuva!
............................
por Adriana Facina
Muito feliz com o resultado das eleições no Rio e em Niterói. PSOL ampliou muito sua bancada. Paulo Eduardo Gomes e Renatinho PSol foram os vereadores mais votados e ainda elegemos Henrique Vieira, que fez belíssima campanha. Teremos outra câmara em Niterói. Flavio Serafini despontou como nova liderança política, ganhando muito respeito, mesmo entre seus adversários. E, de quebra, ainda desbancou a campanha milionária do Zveiter.
No Rio, além de ampliarmos a bancada, elegemos Renato Cinco, com uma candidatura que traz o difícil tema do antiproibicionismo. Meu candidato, Mc Leonardo Apafunk, fez uma belíssima campanha, levando informação e debates fundamentais para nossa cultura. Marcelo Freixo se tornou agora um político com expressão nacional e tenho certeza de que sua trajetória está em franca ascensão.
Sei que muita gente está triste, porque não chegamos no segundo turno. Sobretudo aquela rapaziada que estreou agora na militância, nessa campanha tão bonita e inspirada. Para esses eu queria dizer algumas palavras.
Em primeiro lugar, não acreditem que a reeleição do Paes é fruto da burrice ou da alienação,ou mesmo da ignorância do povo. Nosso povo é sofrido e vota com o pragmatismo daqueles que matam um leão por dia pra sobreviver e dar de comer aos seus. Claro que existem os oportunistas, mas são minoria. A desigualdade do tempo de TV, a campanha nojenta da mídia corporativa e antidemocrática, os rios de dinheiros fornecidos por empreiteiras e empresas de transporte tudo isso conta. Mas conta mais o dinheiro no bolso, a promessa de emprego, as expectativas de oportunidades de vida. Essa pauta é mais relevante do que a das milícias ou da ética na política, por exemplo. E há uma lógica nisso que temos de reconhecer e dialogar com ela. Pensem em Gramsci nos cárceres do fascismo, tentando entender a derrota comunista e, mesmo naquelas condições dramáticas, se recusando a dar respostas fáceis e elitistas. O comunista italiano, naquelas condições, afirmava o núcleo de bom senso do senso comum e trazia a máxima radical: todos são intelectuais.
Esse povo que hoje reelegeu o Pae$ é o povo com que faremos a revolução e não outro. É com ele que aprenderemos, é com ele que dialogaremos. Estamos em processo, na luta e com humildade tentando aprender com nossas derrotas. Como diz o grande pensador Carlos Walter Porto Gonçalves, o dia em que conseguirmos nos comunicar com aquelas subjetividades que se entristecem no domingo porque a segunda está próxima, marcando um novo ciclo de exploração do trabalho e de vida sem sentido, faremos a revolução.
Luta que segue. Temos agora a primavera nos dentes. Nada poderá detê-la.
sábado, 6 de outubro de 2012
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
demodê
acho a instauração do "se conhecer" e/ou vamos nos conhecer tão demodê... já nos conhecemos, somos humanos passíveis de...
escolhi não me vender, e minha sinceridade é quase um defeito
escolhi não me vender, e minha sinceridade é quase um defeito
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
2004
Carta de despedida do Studio de Dança do I.E.E
Cheguei no Rio de Janeiro em maço de 2004 (mas comemoro em abril). Foi um ano de expectativas, na verdade o Rio seria uma passagem, um período, daqui eu iria para China. Mas os planos mudaram e estou num rito de mais de 8 anos de passagem na cidade que me acolheu e mais me entendeu. Rio meu amor também é teu. Não tenho do que reclamar. São muito mais alegrias, do que tristezas.
Mas hoje quero publicar aqui uma carta que recebi na minha despedida do Studio de Dança em Florianópolis. Há alguns meses, sem saberem da minha partida, nem eu sabia. Minhas amigas acabaram criando um “Fã Clube”, com carteirinha e tudo, meio de brincadeira. Mas cheio de carinho e amor de verdade. Segue a carta dessas amigas inesquecíveis na minha memória, e mais no meu coração. Sempre lembro de vocês.
Talitta!
Esta não é uma despedida e sim a recepção de uma nova etapa da sua vida. Etapa de grande mudança, de grande vitória e muito aprendizado. A vida põe provas em nosso caminho. Conforme vamos crescendo, as oportunidades vão surgindo, as trilhas vão se abrindo e as escolhas precisam ser feitas. Construindo, assim, o nosso futuro.
Saiba que sentiremos muito a sua falta, pois você é e sempre será a nossa “ídola”. A marca dos nossos desodorantes, a fronha dos nossos travesseiros, o pôster dos nossos quartos... a nossa “Santa Talittina”. Impossível esquecer da sua pizza de brócolis, seu “Chico Buarque”, seu coque irresistível, sua baba no edredon, seu andar na meia-ponta, seu “cochilinho” no Cau Hansen (Festival de Dança de Joinville), suas paçocas e pipocas BILU (aquela do saco rosa) no terminal (de ônibus), além do cacho de bananas.
As músicas que tivemos o privilégio de ouvir você cantar... “beija, beija, tá calor, tá calor”... ou “procurando bem todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina”... seu inglês evoluído “sorry!”... e sua mais atual e famosa frase “a tua calcinha é maior que a minha cueca!” – explico: atravessava a rua na faixa, quando um moço gritou isso do carro; acontece que a marca do que ele chamou de calcinha era do collant, e eu estava de calça de ginástica, por isso ele observou a marca... enfim, ele observou a minha bunda -.
Brincadeiras e lembranças à parte... desejamos que você aproveite muito a viagem, amadureça e aprenda muito para nos ensinar depois, e acima de tudo, seja muito, mais muito feliz! Estaremos aqui, esperando você voltar... e a distância com certeza não será suficiente para esquecermos de você.
Beijos com muito amor de todas as suas fãs, que antes disso são tuas amigas! “Talitta nós te amamos!”
...................
* Pra não esquecer de mim.
** E muito grata.
Cheguei no Rio de Janeiro em maço de 2004 (mas comemoro em abril). Foi um ano de expectativas, na verdade o Rio seria uma passagem, um período, daqui eu iria para China. Mas os planos mudaram e estou num rito de mais de 8 anos de passagem na cidade que me acolheu e mais me entendeu. Rio meu amor também é teu. Não tenho do que reclamar. São muito mais alegrias, do que tristezas.
Mas hoje quero publicar aqui uma carta que recebi na minha despedida do Studio de Dança em Florianópolis. Há alguns meses, sem saberem da minha partida, nem eu sabia. Minhas amigas acabaram criando um “Fã Clube”, com carteirinha e tudo, meio de brincadeira. Mas cheio de carinho e amor de verdade. Segue a carta dessas amigas inesquecíveis na minha memória, e mais no meu coração. Sempre lembro de vocês.
Talitta!
Esta não é uma despedida e sim a recepção de uma nova etapa da sua vida. Etapa de grande mudança, de grande vitória e muito aprendizado. A vida põe provas em nosso caminho. Conforme vamos crescendo, as oportunidades vão surgindo, as trilhas vão se abrindo e as escolhas precisam ser feitas. Construindo, assim, o nosso futuro.
Saiba que sentiremos muito a sua falta, pois você é e sempre será a nossa “ídola”. A marca dos nossos desodorantes, a fronha dos nossos travesseiros, o pôster dos nossos quartos... a nossa “Santa Talittina”. Impossível esquecer da sua pizza de brócolis, seu “Chico Buarque”, seu coque irresistível, sua baba no edredon, seu andar na meia-ponta, seu “cochilinho” no Cau Hansen (Festival de Dança de Joinville), suas paçocas e pipocas BILU (aquela do saco rosa) no terminal (de ônibus), além do cacho de bananas.
As músicas que tivemos o privilégio de ouvir você cantar... “beija, beija, tá calor, tá calor”... ou “procurando bem todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina”... seu inglês evoluído “sorry!”... e sua mais atual e famosa frase “a tua calcinha é maior que a minha cueca!” – explico: atravessava a rua na faixa, quando um moço gritou isso do carro; acontece que a marca do que ele chamou de calcinha era do collant, e eu estava de calça de ginástica, por isso ele observou a marca... enfim, ele observou a minha bunda -.
Brincadeiras e lembranças à parte... desejamos que você aproveite muito a viagem, amadureça e aprenda muito para nos ensinar depois, e acima de tudo, seja muito, mais muito feliz! Estaremos aqui, esperando você voltar... e a distância com certeza não será suficiente para esquecermos de você.
Beijos com muito amor de todas as suas fãs, que antes disso são tuas amigas! “Talitta nós te amamos!”
...................
* Pra não esquecer de mim.
** E muito grata.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
carpinejando
Adoecer por paixão não é um vexame. Gafe é fingir que nada aconteceu.
......................
Venha, por favor
por Fabrício Carpinejar (com licença poética)
Eu espero alguém que não desista de mim mesmo quando já não tem interesse. Espero alguém que não me torture com promessas de envelhecer comigo, que realmente envelheça comigo. Espero alguém que se orgulhe do que escrevo, que me faça ser mais amiga dos meus amigos e mais irmã dos meus irmãos. Espero alguém que não tenha medo do escândalo, mas tenha medo da indiferença. Espero alguém que ponha bilhetinhos dentro daqueles livros que vou ler até o fim. Espero alguém que se arrependa rápido de suas grosserias e me perdoe sem querer. Espero alguém que me avise que estou repetindo a roupa na semana. Espero alguém que nunca abandone a conversa quando não sei mais falar. Espero alguém que, nos jantares entre os amigos, dispute comigo para contar primeiro como nos conhecemos. Espero alguém que goste de dirigir para nos revezarmos em longas viagens. Espero alguém disposto a conferir se a porta está fechada e o café desligado, se meu rosto está aborrecido ou esperançoso. Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros. Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade (e sinceridade). Espero alguém que possa criar toda uma linguagem cifrada para que ninguém nos recrimine. Espero alguém que arrume ingressos de teatro de repente, que me sequestre ao cinema, que cheire meu corpo suado como se ainda fosse perfume. Espero alguém que não largue as mãos dadas nem para coçar o rosto. Espero alguém que me olhe demoradamente quando estou distraída, que me telefone para narrar como foi seu dia. Espero alguém que procure um espaço acolchoado em meu peito. Espero alguém que minta que cozinha e só diga a verdade depois que comi. Espero alguém que leia uma notícia, veja que haverá um show de minha banda predileta, e corra para me adiantar por e-mail. Espero alguém que ame meus filhos como se estivesse reencontrando minha infância e adolescência fora de mim. Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar. Espero alguém com uma vocação pela metade, uma frustração antiga, um desejo de ser algo que não se cumpriu, uma melancolia discreta, para nunca ser prepotente. Espero alguém que tenha uma risada tão bonita que terei sempre vontade de ser engraçada. Espero alguém que comente sua dor com respeito e ouça minha dor com interesse. Espero alguém que prepare minha festa de aniversário em segredo e crie conspiração dos amigos para me ajudar. Espero alguém que pinte o muro onde passo, que não se perturbe com o que as pessoas pensam a nosso respeito. Espero alguém que vire cínico no desespero e doce na tristeza. Espero alguém que curta o domingo em casa, acordar tarde e andar de chinelos, e que me pergunte o tempo antes de olhar para as janelas. Espero alguém que me ensine a me amar, porque a separação apenas vem me ensinando a me destruir. Espero alguém que tenha pressa de mim, eternidade de mim, que chegue logo, que apareça hoje, que largue o casaco no sofá e não seja educado a ponto de estendê-lo no cabide. Espero encontrar um homem que me torne novamente necessária.
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Venha, por favor
por Fabrício Carpinejar (com licença poética)
Eu espero alguém que não desista de mim mesmo quando já não tem interesse. Espero alguém que não me torture com promessas de envelhecer comigo, que realmente envelheça comigo. Espero alguém que se orgulhe do que escrevo, que me faça ser mais amiga dos meus amigos e mais irmã dos meus irmãos. Espero alguém que não tenha medo do escândalo, mas tenha medo da indiferença. Espero alguém que ponha bilhetinhos dentro daqueles livros que vou ler até o fim. Espero alguém que se arrependa rápido de suas grosserias e me perdoe sem querer. Espero alguém que me avise que estou repetindo a roupa na semana. Espero alguém que nunca abandone a conversa quando não sei mais falar. Espero alguém que, nos jantares entre os amigos, dispute comigo para contar primeiro como nos conhecemos. Espero alguém que goste de dirigir para nos revezarmos em longas viagens. Espero alguém disposto a conferir se a porta está fechada e o café desligado, se meu rosto está aborrecido ou esperançoso. Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros. Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade (e sinceridade). Espero alguém que possa criar toda uma linguagem cifrada para que ninguém nos recrimine. Espero alguém que arrume ingressos de teatro de repente, que me sequestre ao cinema, que cheire meu corpo suado como se ainda fosse perfume. Espero alguém que não largue as mãos dadas nem para coçar o rosto. Espero alguém que me olhe demoradamente quando estou distraída, que me telefone para narrar como foi seu dia. Espero alguém que procure um espaço acolchoado em meu peito. Espero alguém que minta que cozinha e só diga a verdade depois que comi. Espero alguém que leia uma notícia, veja que haverá um show de minha banda predileta, e corra para me adiantar por e-mail. Espero alguém que ame meus filhos como se estivesse reencontrando minha infância e adolescência fora de mim. Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar. Espero alguém com uma vocação pela metade, uma frustração antiga, um desejo de ser algo que não se cumpriu, uma melancolia discreta, para nunca ser prepotente. Espero alguém que tenha uma risada tão bonita que terei sempre vontade de ser engraçada. Espero alguém que comente sua dor com respeito e ouça minha dor com interesse. Espero alguém que prepare minha festa de aniversário em segredo e crie conspiração dos amigos para me ajudar. Espero alguém que pinte o muro onde passo, que não se perturbe com o que as pessoas pensam a nosso respeito. Espero alguém que vire cínico no desespero e doce na tristeza. Espero alguém que curta o domingo em casa, acordar tarde e andar de chinelos, e que me pergunte o tempo antes de olhar para as janelas. Espero alguém que me ensine a me amar, porque a separação apenas vem me ensinando a me destruir. Espero alguém que tenha pressa de mim, eternidade de mim, que chegue logo, que apareça hoje, que largue o casaco no sofá e não seja educado a ponto de estendê-lo no cabide. Espero encontrar um homem que me torne novamente necessária.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
te deixo em paz
Me deixa em paz
(Alaíde Costa)
Se você não me queria
Não devia me procurar
Não devia me iludir
Nem deixar eu me apaixonar
Evitar a dor
É impossível
Evitar esse amor
É muito mais
Você arruinou a minha vida
Me deixa em paz
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Campeche
A democracia em Florianópolis
por Elaine Tavares
O mundo liberal burguês criou o mito da democracia como sendo a possibilidade que o povo tem de escolher seus representantes. Vota-se a cada dois anos, para prefeito, vereador, deputado estadual, federal, senador, governador e presidente. E tudo está feito. Fez-se a democracia. Os eleitos, que na campanha prometem defender as causas do povo, ao assumirem os cargos passam a defender os interesses de quem financiou a campanha, o que nunca é o povo. No geral são empresários, grupos de interesses específicos, que cobram a fatura. Assim, o povo fica a ver navios, esperando pela próxima campanha, na qual os candidatos farão as mesmas promessas.
Estamos em campanha agora. Os mesmos caras que governam a cidade há décadas expõem suas propostas como se nunca tivessem estado no poder. Falam de melhorar o transporte, a saúde, a segurança, tem quem queira colocar GPS para que o povo saiba onde está o ônibus, os que vão criar creches 24 horas e nas férias, para que as mães possam trabalhar tranquilas. Enfim, um festival de bobagens. Na outra ponta, as gentes, alucinadas com a dura tarefa de sobreviver, que se encantam com a tela fosforescente e acreditam nas promessas. Sem tempo para pensar a realidade e se organizar numa verdadeira democracia participativa, acossadas pela necessidade de ganhar a vida, as pessoas preferem crer nos representantes e esperar que eles os salvem. Não é assim, nem nunca será.
Esta semana a prefeitura organizou uma cena digna de compaixão. Juntou trabalhadores do Posto de Saúde do Campeche e da região, famílias amigas, políticos inescrupulosos e propuseram uma obra ao bairro: um novo Posto de Saúde, desta vez próprio, pois o que tem está em casa alugada. A prefeitura recebeu uma grana do PAC e precisa gastar tudo até o final do ano. Estava com pressa. Aproveitou as eleições e colocou para o povo a possibilidade da construção do Posto no mesmo lugar onde a comunidade, há décadas, pede a criação de um Parque Cultural. Pois algumas lideranças comunitárias, dessas que estão na luta orgânica desde sempre foram à reunião para tentar explicar que o Campeche tem muitos outros terrenos onde o Posto pode ser construído. Por que escolher o lugar do parque?
Na verdade, quem luta no Campeche sabe porque a prefeitura veio com essa proposta. Porque o Parque Cultural é uma proposta do movimento popular, dos que lutam por uma bairro-jardim, por vida boa para todos, dos que batalham por espaços de convivência que integrem e organizem a comunidade. E essas coisas tem de ser destruídas pelo poder instituído. Impor uma derrota ao movimento, esfacelar os sonhos, dividir as gentes.
E foi o que se viu. Moradores contra moradores, pessoas simples, gente que convive diariamente e sofre a falta de espaços de lazer e de organização, acusando os lutadores sociais de estarem contra o Posto de Saúde. Ou seja, desvirtuando completamente as coisas. O que se propunha era o Posto em outro lugar. E há terra demais para isso. E não teve jeito. Como a prefeitura havia organizado as famílias e os trabalhadores, a proposta passou. Derrota para o movimento social, desgaste, tristeza. As lutas de anos a fio indo pelo ralo.
Não bastasse isso, os vereadores da cidade, na surdina, sem divulgação alguma, e no apagar das luzes antes das eleições, aprovaram uma série de alterações de zoneamento, quando todo o movimento de luta por um Plano Diretor vem exigindo um defeso nessa área. E o que significa isso? Que não deve haver alteração de zoneamento enquanto não se decidir o plano diretor. Isso foi decisão das comunidades, das gentes que estão há mais de cinco anos discutindo o Plano Diretor. Mas quem diz que vereador representa o povo? Eles representam os interesses imobiliários, dos poderosos, dos ricos. E, surdos às gentes, aprovaram proposta do vereador Dalmo de Menezes (candidato de novo) alterações na lei que limita o número de andares nos prédios do Cacupé, abolindo a decisão do povo que exigia a continuidade da regra dos dois pavimentos. Aprovaram ainda outra lei que altera zoneamento no Campeche, de autoria do vereador João Aurélio (candidato de novo). E outro do Dalmo Menezes que incentiva a construção de shopings na cidade, e mais outros quatro projetos que também alteram o zoneamento de áreas no Saco Grande, Vargem Grande, Pântano do Sul e Centro, apresentados pelos vereadores Ricardo Vieira e Jaime Tonelo (candidatos de novo). Candidatos de quem?
"Ah, mas tem um que cria um parque", pode dizer algum mal-intencionado. Não importa. O que tem de ficar claro é que os movimentos sociais, as pessoas envolvidas com a construção do plano diretor haviam decidido pelo defeso. Por que não são escutadas? Porque o que vivemos não é uma democracia. Porque o que manda é o poder financeiro, os caras que investem, que criam negócios altamente lucrativos para muito poucos.
A democracia deveria ser a aceitação da decisão da maioria. Mas isso é burlado todos os dias, em quase todos os espaços. E quando o poder quer fazer passar seus interesses eles arranjam a maioria, levam pessoas, compram corações e mentes, muitas vezes ingênuos, acreditando fazer bem à comunidade.
E assim vamos seguindo nessa cidade triste, onde a voz das gentes não é escutada. Mas, cada derrota sofrida serve de mola para que a luta siga. E os que estão aí por anos a fio batalhando por uma cidade boa de viver não se abatem com as manobras governistas e com a ação dos que praticam a pequena política. Tem muita gente que consegue levantar o véu dessa democracia de mentira, consegue ver o que está debaixo do pano, consegue compreender e encontra forças para avançar.
O Campeche, lembra a educadora Telma Piacentini, é espaço de surfistas e eles nos ensinam todos os dias que sempre vem uma onda melhor. Eles ficam ali, deitados na prancha, esperando por ela. E quando ela vem, eles assomam, cavalgam e domam. Hoje, os vereadores, a prefeitura e os pequenos políticos nos pegaram...Mas é bom que saibam, estamos aqui, na prancha, esperando a onda. E ela vem... ela sempre vem...
por Elaine Tavares
O mundo liberal burguês criou o mito da democracia como sendo a possibilidade que o povo tem de escolher seus representantes. Vota-se a cada dois anos, para prefeito, vereador, deputado estadual, federal, senador, governador e presidente. E tudo está feito. Fez-se a democracia. Os eleitos, que na campanha prometem defender as causas do povo, ao assumirem os cargos passam a defender os interesses de quem financiou a campanha, o que nunca é o povo. No geral são empresários, grupos de interesses específicos, que cobram a fatura. Assim, o povo fica a ver navios, esperando pela próxima campanha, na qual os candidatos farão as mesmas promessas.
Estamos em campanha agora. Os mesmos caras que governam a cidade há décadas expõem suas propostas como se nunca tivessem estado no poder. Falam de melhorar o transporte, a saúde, a segurança, tem quem queira colocar GPS para que o povo saiba onde está o ônibus, os que vão criar creches 24 horas e nas férias, para que as mães possam trabalhar tranquilas. Enfim, um festival de bobagens. Na outra ponta, as gentes, alucinadas com a dura tarefa de sobreviver, que se encantam com a tela fosforescente e acreditam nas promessas. Sem tempo para pensar a realidade e se organizar numa verdadeira democracia participativa, acossadas pela necessidade de ganhar a vida, as pessoas preferem crer nos representantes e esperar que eles os salvem. Não é assim, nem nunca será.
Esta semana a prefeitura organizou uma cena digna de compaixão. Juntou trabalhadores do Posto de Saúde do Campeche e da região, famílias amigas, políticos inescrupulosos e propuseram uma obra ao bairro: um novo Posto de Saúde, desta vez próprio, pois o que tem está em casa alugada. A prefeitura recebeu uma grana do PAC e precisa gastar tudo até o final do ano. Estava com pressa. Aproveitou as eleições e colocou para o povo a possibilidade da construção do Posto no mesmo lugar onde a comunidade, há décadas, pede a criação de um Parque Cultural. Pois algumas lideranças comunitárias, dessas que estão na luta orgânica desde sempre foram à reunião para tentar explicar que o Campeche tem muitos outros terrenos onde o Posto pode ser construído. Por que escolher o lugar do parque?
Na verdade, quem luta no Campeche sabe porque a prefeitura veio com essa proposta. Porque o Parque Cultural é uma proposta do movimento popular, dos que lutam por uma bairro-jardim, por vida boa para todos, dos que batalham por espaços de convivência que integrem e organizem a comunidade. E essas coisas tem de ser destruídas pelo poder instituído. Impor uma derrota ao movimento, esfacelar os sonhos, dividir as gentes.
E foi o que se viu. Moradores contra moradores, pessoas simples, gente que convive diariamente e sofre a falta de espaços de lazer e de organização, acusando os lutadores sociais de estarem contra o Posto de Saúde. Ou seja, desvirtuando completamente as coisas. O que se propunha era o Posto em outro lugar. E há terra demais para isso. E não teve jeito. Como a prefeitura havia organizado as famílias e os trabalhadores, a proposta passou. Derrota para o movimento social, desgaste, tristeza. As lutas de anos a fio indo pelo ralo.
Não bastasse isso, os vereadores da cidade, na surdina, sem divulgação alguma, e no apagar das luzes antes das eleições, aprovaram uma série de alterações de zoneamento, quando todo o movimento de luta por um Plano Diretor vem exigindo um defeso nessa área. E o que significa isso? Que não deve haver alteração de zoneamento enquanto não se decidir o plano diretor. Isso foi decisão das comunidades, das gentes que estão há mais de cinco anos discutindo o Plano Diretor. Mas quem diz que vereador representa o povo? Eles representam os interesses imobiliários, dos poderosos, dos ricos. E, surdos às gentes, aprovaram proposta do vereador Dalmo de Menezes (candidato de novo) alterações na lei que limita o número de andares nos prédios do Cacupé, abolindo a decisão do povo que exigia a continuidade da regra dos dois pavimentos. Aprovaram ainda outra lei que altera zoneamento no Campeche, de autoria do vereador João Aurélio (candidato de novo). E outro do Dalmo Menezes que incentiva a construção de shopings na cidade, e mais outros quatro projetos que também alteram o zoneamento de áreas no Saco Grande, Vargem Grande, Pântano do Sul e Centro, apresentados pelos vereadores Ricardo Vieira e Jaime Tonelo (candidatos de novo). Candidatos de quem?
"Ah, mas tem um que cria um parque", pode dizer algum mal-intencionado. Não importa. O que tem de ficar claro é que os movimentos sociais, as pessoas envolvidas com a construção do plano diretor haviam decidido pelo defeso. Por que não são escutadas? Porque o que vivemos não é uma democracia. Porque o que manda é o poder financeiro, os caras que investem, que criam negócios altamente lucrativos para muito poucos.
A democracia deveria ser a aceitação da decisão da maioria. Mas isso é burlado todos os dias, em quase todos os espaços. E quando o poder quer fazer passar seus interesses eles arranjam a maioria, levam pessoas, compram corações e mentes, muitas vezes ingênuos, acreditando fazer bem à comunidade.
E assim vamos seguindo nessa cidade triste, onde a voz das gentes não é escutada. Mas, cada derrota sofrida serve de mola para que a luta siga. E os que estão aí por anos a fio batalhando por uma cidade boa de viver não se abatem com as manobras governistas e com a ação dos que praticam a pequena política. Tem muita gente que consegue levantar o véu dessa democracia de mentira, consegue ver o que está debaixo do pano, consegue compreender e encontra forças para avançar.
O Campeche, lembra a educadora Telma Piacentini, é espaço de surfistas e eles nos ensinam todos os dias que sempre vem uma onda melhor. Eles ficam ali, deitados na prancha, esperando por ela. E quando ela vem, eles assomam, cavalgam e domam. Hoje, os vereadores, a prefeitura e os pequenos políticos nos pegaram...Mas é bom que saibam, estamos aqui, na prancha, esperando a onda. E ela vem... ela sempre vem...
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Carlos Drummond de Andrade
Viver não dói
Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas.
Por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos.
Por todos os filhos que gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos.
Por todos os shows, livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam. Todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais.
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.
Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas.
Por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos.
Por todos os filhos que gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos.
Por todos os shows, livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam. Todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais.
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.
domingo, 16 de setembro de 2012
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
o sol ensolarará a estrada dela
Dura Na Queda
(Chico Buarque)
Perdida
Na avenida
Canta seu enredo
Fora do carnaval
Perdeu a saia
Perdeu o emprego
Desfila natural
Esquinas
Mil buzinas
Imagina orquestras
Samba no chafariz
Viva a folia
A dor não presta
Felicidade, sim
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol, a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
Bambeia
Cambaleia
É dura na queda
Custa a cair em si
Largou família
Bebeu veneno
E vai morrer de rir
Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas pra quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol,a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
O sol ensolarará a estrada dela
A lua alumiará o mar
A vida é bela
O sol,a estrada amarela
E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Brasil
Um novo Brasil
por Alexandra Lucas Coelho
Maria Aparecida da Silva Dias Carvalho segura a carteira azul contra o sol. É Inverno no bairro carioca da Gávea portanto dá para ficar ao sol à espera da fotografia. A carteira azul, assinada pelo empregador, prova que Aparecida trabalha como empregada doméstica. Esta novidade tem seis meses na vida dela e está a mudar o Brasil. Calcula-se que 52 milhões de brasileiros terão entrado na classe média desde 2003 até 2014: mais de cinco portugais em apenas 11 anos. E o importante desta nova classe média, aquilo que a torna sustentável, é a formalização do trabalho.
A Gávea tem o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Rio de Janeiro. Esta casa é um duplex no topo do prédio. Os donos, ambos advogados, passam o dia fora. A babá Luciana acaba de sair para ir buscar a criança ao colégio, de onde a levará à natação. “Estou aqui há quatro anos, tomando conta dessa benção, essa criança que amo de paixão”, disse ela antes de partir. “Mas não trabalho feriado, não trabalho sábado e domingo.” Nesses dias entra a folguista para a substituir. “E vou embora todos os dias. Se você mora na casa não tem hora para deitar. Vai do empregado se impôr. Hoje a gente não tem medo de ficar desempregada. Faz uma entrevista, se não está a fim, se não gosta do salário, das condições, não fica.” Um discurso que há 15 anos seria difícil de ouvir na hierarquizada sociedade brasileira.
É quando Luciana sai que a casa fica por conta de Aparecida, pelo menos nos dias em que não vem a faxineira, como hoje. Há um terceiro empregado diário, o motorista, mas o lugar dele é lá fora. Esquema comum nas classes A e B do Rio de Janeiro: babá, empregada, motorista, faxineira. Menos comum era que os patrões assinassem a carteira de trabalho, o que implica pagar, além do salário, impostos e férias, como agora acontece com Aparecida.
A terra dela é Petrópolis, a Sintra dos cariocas onde D. Pedro II ergueu o seu palácio de Verão e hoje há uma periferia de favelas. “Eu trabalhava lá para uma professora que dizia que quando arrumasse um serviço melhor assinava minha carteira, mas acabou que os anos foram passando”, resume Aparecida, sentada no terraço. “Gosto muito dela e ela de mim, ficou uma coisa assim de amizade. Depois ela não pôde ficar mais comigo, deixou de ter condições. Aí, fiquei desempregada.”
Aos 43 anos, com três filhas em casa, uma delas grávida pela segunda vez, e nenhum marido há muito. Criou as filhas sozinha? “Eu e Deus.” Evangélica da igreja Obra de Restauração, uma das muitas que proliferaram no Brasil pré-nova classe média.
“Eu estava já com quatro meses de aluguel atrasado, aí uma amiga me falou desse trabalho no Rio. Me disse: ‘Eu tomo conta das tuas filhas, vai nem que seja dois meses.’ Minha intenção era essa, dois meses para acertar o aluguel. Mas acabou que eu gostei. Eles [os patrões] são óptimos. No primeiro mês as meninas ficaram meio chorosas, mas eu saio sexta para Petrópolis às duas da tarde e volto segunda de manhã.”
Quatro dias e meio de trabalho que contam bem por cinco, porque Aparecida trabalha de manhã à noite. “A faxineira faz o trabalho mais pesado, lavar, limpar vidros. Eu dou uma limpeza na casa, cozinho e passo. Vim para cozinhar.”
Recebe 1400 reais limpos, mais 270 para os bilhetes de autocarro. Somando, 1670 reais (662 euros), o que põe Aparecida oficialmente na nova classe média: contando com as três filhas que dependem dela, o rendimento per capita dá 417,5 reais e, segundo os mais recentes critérios do governo brasileiro, classe média é o grupo composto por famílias com rendimento per capita entre 291 e 1019 reais. No total, 54% da população.
“Em vista do que eu ganhava, que era o salário mínimo, é um bom salário.” Foi a proposta do dono da casa, para quem trabalho informal estava fora de questão. “Eu nem queria carteira porque achava que ia ficar só dois meses, mas ele exigiu tudo direitinho. Entrei a 5 de Janeiro e a 5 de Fevereiro já me entregou a carteira.”
Diferenças?
“Quando fiquei quatro meses parada tive de fazer uma cirurgia. Se eu tivesse carteira assinada o INSS [segurança social] cobria. Agora, se eu precisar de ficar em casa, sei que vou ficar lá segurada. E se eu morrer hoje sei que as minhas filhas vão receber um salário.”
As casas da Zona Sul carioca tendem a ter pelo menos um quarto de empregada. É aí que Aparecida dorme, com a calculável vantagem de não gastar dinheiro em alojamento e alimentação e a incalculável desvantagem de não estar na própria casa. “Para mim é normal, só sinto falta das minhas filhas. Mas o quarto é confortável, tem televisão, fico vendo até hora que eu quero. E o que tem de comida, todo o mundo come igual.”
Ainda assim, mal consegue poupar. “Só tiro uns 50 reais por mês. O resto é aluguel, as filhas, luz, água, Internet que as crianças têm que ter para fazer pesquisa para a escola.” Um computador para as três, dois telemóveis para as mais velhas, todos os electrodomésticos, mais alguns extras. “Prometi às minhas filhas que quando receber o 13º vamos para a região dos Lagos. Agora posso pagar as roupas que pediam e coisas de comer mais caras, iogurte, biscoito recheado, fazer um lanche na rua. Posso pagar curso de informática à do meio e quero colocar ela num curso de inglês.”
Nova classe média também é informação, comunicação, redes. E o subúrbio a rir da Zona Sul, parando o país como há muito não se via: a Avenida Brasil, principal entrada e saída do Rio, dá nome à actual novela das 21h, “filet mignon” da Globo, com a relação patroa-empregada no centro nervoso da trama.
“Não queria ter uma patroa igual àquela de jeito nenhum”, comenta Aparecida. Empregada vai deixando de baixar a cabeça. “Eu tinha amigas que tinham vergonha de trabalhar em casa de família. Mas hoje acho que todo o mundo fala até com um pouco de orgulho.”
O plano de Aparecida é ter uma casa que seja sua.
“A queda da desigualdade é a grande componente brasileira”, diz o economista Marcelo Neri, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas e o mais reconhecido perito em classe média do país, autor de vários estudos sobre o assunto. “O crescimento do Brasil tem caído, mas a desigualdade segue em queda.”
E isso é que faz a diferença em relação aos restantes BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). “Nos outros, a desigualdade tem aumentado. O Brasil não cresce tanto quanto a China mas a desigualdade cai.”
Em 2011, a classe média brasileira estava com 105 milhões, mais 40 do que em 2003. Até 2014, mais 12 milhões vão juntar-se. “O principal símbolo dessa nova classe média não é o cartão de crédito, nem o carro, mas a carteira de trabalho, segurança para as pessoas, garantias que tornam esse grupo sustentável. E o crescimento da carteira de trabalho por sua vez foi impulsionado pela educação. É mais estrutural do que eu próprio acreditava quando fiz as pesquisas.”
Não se resume à caricatura do consumo, dos ecrãs LCD comprados a prestações no cartão de crédito. O índice do produtor — aquele que produz algo — “está crescendo mais 38% que o do consumo”. Em resumo: “A capacidade de consumo é mais consequência do que definição. O ponto é que esse consumidor veio para ficar porque está baseado no mercado de trabalho. Será um consumidor robusto no futuro. O Brasil está com um nível mínimo de desemprego.”
Representando 54% da população, e a crescer, esta classe média não é apenas um poder económico: “Pode decidir sozinha uma eleição.” E parece-se muito com a classe média mundial, diz Neri. “Não é americana, não é europeia, com dois carros e dois cachorros. Mas já tem dois filhos. A distribuição de renda brasileira é parecida com a do mundo. Na China ou na Índia, a nova classe média são pessoas que já tinham condições e melhoraram. No Brasil são pessoas que vieram de baixo.”
Como Aparecida da Silva. “A metade mais pobre do Brasil teve um crescimento 550% mais rápido que os 10% mais ricos”, explica o economista. “A desigualdade está no seu mínimo histórico.”
O Brasil é um país “de muita inércia, uma sociedade com pouca tendência a mudanças” e isso tem custos: “Como a gente acha que Deus é brasileiro, não poupa, não investe em educação.” Então, o que aconteceu “nos últimos 10, 12 anos” foi “um milagre social”, diz Neri. “Este crescimento tem qualidade. Para entender o Brasil, tem de separar a foto do filme. A foto ainda é muito ruim, com desigualdade, informalidade. Mas é muito menos ruim do que há 20 anos. E o brasileiro está feliz, optimista em relação ao futuro, o que é um traço cultural. Os dados comprovam isso.”
Por exemplo, o Índice de Felicidade Futura (ranking feito pela fundação a partir de dados do Gallup World Poll em 158 países), em que os inquiridos dão uma nota de 1 a 10 à sua vida daí a cinco anos. “O brasileiro dá 8,6. É a nota mais alta do mundo, entre 158 países, e já por quatro vezes. Aí, o Brasil é o país do futuro na cabeça no brasileiro. Não um ‘hard power’, mas um ‘soft power’. E no índice de felicidade futura é o 22º. Quando as pessoas saem de baixo, o nível de optimismo sobe muito.”
A novela “Avenida Brasil”, crê Marcelo Neri, mostra como essa nova classe média começou a ser objecto de atenção. “Não só ela está querendo se ver, como as elites não estão mais se vendo. A Rede Globo demorou, mas agora percebeu a mudança com toda a força e isso ajuda a propagar o processo. É uma coisa de grande importância, que representa a nova cena do Brasil.”
“Não quis fazer uma caricatura do subúrbio, ao contrário, quis debochar da Vieira Souto [marginal de Ipanema, morada de luxo]”, disse terça-feira ao “Globo” o autor da novela, João Emanuel Carneiro. “Os ricos hoje têm uma vida acomodada na riqueza” mas “o Lula e a Dilma esvaziaram essa visão positiva das elites”, e “o luxo já não enche os olhos visto na tela”. Além de que o dinheiro mudou de lugar e “a cultura está sucateada”. Ou seja: “Hoje, no Brasil, um encanador ou um comerciante ganham mais do que um professor universitário.”
Carneiro tem em cima dos ombros a pressão diária de milhões suspensos da batalha entre Carminha, a patroa suburbana, e Nina, a empregada vingativa. O PÚBLICO enviou-lhe um mail, sendo que, segundo o “Globo”, o roteirista está recluso num apartamento a escrever das três da tarde às três da manhã e não respondeu até à hora de fecho desta edição.
Mas um ano antes da estreia mergulhou no subúrbio de facto, nesses bairros de onde vem e onde continua a classe C, aquela que todos os mercados agora querem conquistar: companhias áreas e agentes de turismo, marcas de roupa e televisões a cabo.
“O João foi comigo várias vezes”, conta Anna Lee, a pesquisadora de “Avenida Brasil” a quem a equipa de roteiristas pode perguntar tudo diariamente. “Ele já tinha lugares e ideias na cabeça mas fez questão de ir. Fomos ver as casas, um clube de segunda divisão, o Shopping de Bangu, o Viaduto de Madureira.”
Bairro de escolas de samba históricas como a Portela ou a Império Serrano, Madureira aloja há 20 anos um baile charme, ou seja, uma festa de música negra para dançar. A novela inspirou-se nela e agora os queques da Zona Sul querem ir lá para o viaduto.
A mudança social também passa por essa inversão. Em vez da classe C vir para a Zona Sul, a Zona Sul vai para os bairros da classe C, ex-D/E.
“O interessante que a gente percebeu nas lojas é que é um lugar emergente mesmo”, lembra Anna Lee. “Há um outro dinheiro circulando lá, joalharias nos shoppings. As lojas da Zona Sul estão lá com outra estética. Eles têm as coisas que a gente tem mas da forma deles.”
O autor de “Avenida Brasil” tem mais cinco roteiristas a escrever com ele. Um deles é Alessandro Marson, 43 anos, que a repórter foi encontrar num apartamento de Copacabana, também imerso na pressão dos capítulos diários. Paulista do interior, filho de uma professora e de um dono de supermercado, acostumado aos subúrbios de Campinas, Alessandro tinha escrito cenas suburbanas numa outra novela e captou a atenção de João Emanuel Carneiro. “O João perguntou: ‘Quem está escrevendo essa parte suburbana?’ Depois me disse: ‘Gosto e vou precisar disso na minha novela.’”
Alessandro foi ler o que João já tinha escrito. “Achei que a grande inovação é que a mocinha [a empregada doméstica Nina] agia como vilã.” Não que seja necessariamente vilã, mas actuava como tal. “E a outra novidade é que tinha um núcleo da Zona Sul exclusivamente de comédia. Minha praia de escrita é a comédia, e normalmente os núcleos cómicos da novela acabam sendo suburbanos. ‘Avenida Brasil’ inverteu isso. Os ricos, aqui, moram no subúrbio, a tragédia está no subúrbio, e a comédia na Zona Sul, um homem com três mulheres, entra por uma porta, sai por outra, comédia em estado puro.”
São quase nove da noite, daqui a pouco vai para o ar o capítulo 112 e, como sempre, Alessandro vai sentar-se de iPad em frente à televisão. “Fico assistindo com o Twitter. As pessoas ficam comentando e fazendo perguntas. É uma forma muito rápida e quente de ver o que gostam ou não. Todo o mundo que fala da novela usa o tag “oioioi” mais número do capítulo. Está no topo todos os dias, é o assunto mais comentado do Brasil de segunda a sábado, e muitas vezes os outros tags mais comentados são nomes de personagens da novela.”
“Avenida Brasil” tornou-se um vício do novo Brasil, incluindo a elite blasé que nunca mais vira novela e agora adia jantares, teatros, concertos para ver a classe C ser protagonista.
“Os evangélicos pentecostais cresceram muito nas décadas perdidas da economia brasileira”, recorda o economista Marcelo Neri. Isso, entre os anos 80 e 90. Agora, “os católicos estão perdendo, mas crescem os protestantes tradicionais, os baptistas, os budistas, os espíritas”. Ou seja, “aumentou a diversidade e os pentecostais crescem menos, o que está associado à prosperidade”.
E esta nova classe média está a entrar no universo cultural, não apenas como espectadora, mas também como produtora ou agente. “Você está vendo gente pela primeira vez no teatro ou fazendo uma viagem de avião, e a primeira vez é muito importante”, comenta Neri. “Mas é uma classe que não está acostumada a ler. Isso gera preconceito da classe alta. Tal como existe um conflito de classes no aeroporto, porque a elite sempre teve os aeroportos vazios para ela. A nova classe média incomoda. Culturalmente tem muitas coisas acontecendo, mas não é a cultura tradicional. Está na periferia das cidades.”
Central do Brasil, a grande estação de comboios carioca que estabelece a ligação com as periferias. O comboio das 11h12 para Santa Cruz arranca para quase hora e meia de viagem. Santa Cruz é o extremo da Zona Oeste onde a cidade acaba, ou seja um dos confins do Rio de Janeiro. Para quem vem de carro, o fim da Avenida Brasil. Tantas caras mulatas como brancas na carruagem. O passageiro em frente lê o jornal “Extra” mas o passageiro ao lado lê o livro “Política Externa e Poder Militar no Brasil”. Os clichés não sobrevivem a uma viagem de comboio.
No fim da linha, entre centenas de pessoas a subir para a passagem aérea ou a sair para rua, aparece Alexandre Damascena, actor, encenador, um filho do bairro que aos 39 anos continua a morar no bairro e esta manhã será o anfitrião da reportagem.
“Estamos passando por mudanças muito grandes por causa do BRT, está vendo?” Aponta uma estação de autocarro sofisticada, do outro lado da rua. Os BRT são os autocarros rápidos, com vias exclusivas, que estão a ligar vários pontos da Zona Oeste, e ligarão a Barra da Tijuca ao aeroporto, pensando já nos Jogos Olímpicos de 2016. Enquanto falamos aparece um autocarro azul articulado, novinho em folha, a caminho da Barra.
“Uma viagem que durava uma hora e meia agora passa para 45 minutos”, diz Alexandre. “Tem um impacto muito grande na vida dos moradores.” Estamos em plena zona controlada pelas milícias, ex-polícias que funcionam como os gangues do tráfico, mas em vez de se dedicarem à droga controlam comércio e redes de transporte, como as carrinhas a que os cariocas chamam “vans”, muitas vezes o único meio de chegar a um lugar. “Onde tem dificuldade de transporte sempre acaba abrindo espaço para aparecer vans, que cobram sete reais até à Barra, enquanto este ônibus custa 2,75.”
Caminhamos para o velho carro de Alexandre, a bordo do qual iremos a sua casa, ainda distante. Ele continua a morar com os pais. “A minha mãe fala muito sobre a novela, as vizinhas falam, todo o mundo gosta muito. Essa empregada era a boazinha e agora está tão má quanto a outra [a patroa]. E muita coisa que a gente já viu mas não estava na Globo. Sai do estereótipo do bonzinho. O povo também é complexo. Quem mora na periferia é muito estereotipado nas novelas. Então quando aparece um personagem assim as pessoas pensam: ‘Eu vou ter de me enfrentar.’”
O carro está numa pracinha verde onde há uns anos nasceu a Faculdade Machado de Assis. “Universidade aqui é um fenómeno muito novo. Agora temos três privadas, mas não há nenhuma pública e as privadas estão lotadíssimas. As pessoas estão querendo estudar.”
Quando Alexandre tinha 14 anos e começou a fazer teatro nesta praça não havia nem lugar para ensaiar. “A gente é vizinha de Campo Grande que, tem muito comércio. Mas Santa Cruz tem uma relação com a história do Brasil. O quartel foi casa de D. Pedro II. Era a antiga Fazenda Santa Cruz.”
Lá iremos. Entretanto, basta olhar o outro lado da praça para achar vestígios do passado senhorial: um casarão meio em ruínas ainda habitado. Alexandre cresceu a sonhar que aquilo seria um centro cultural. Ainda não. E quando fundou a sua companhia, que é a Cia do Invisível, fundou também uma novidade na região: fazer as peças em casa das pessoas. “Porque aqui não tem teatro. O projecto chama-se Café com Machado. A gente adaptou ‘O Caso da Vara’, do Machado de Assis.” E incluem um lanche na representação, levam bolinhos, café para a casa anfitriã.
Depois de estudar teatro, Alexandre avançou para a literatura, está a fazer mestrado na UFRJ, a universidade federal do Rio de Janeiro, e gostava de fazer um mestrado em Portugal. Pensou em Coimbra, escreveu, responderam-lhe. Está aberto a outras sugestões. Precisa de achar uma bolsa.
Com tudo isto, atravessando o trânsito de Santa Cruz, ora urbana, ora rural, chegamos ao quartel que era a sede da fazenda. Aqui estiveram os jesuítas do século XVI ao século XVIII, depois a decadência, depois o monarca. Está restaurado, reluz em branco e turquesa. Ao mesmo tempo, não será estranho que se ouçam tiros.
“Onde o poder público não toma conta, vem o tráfico ou a milícia. E como aqui é muito afastado do centro as pessoas não ficam sabendo dos tiroteios, do armamento pesado. Rola uma certa impunidade.” Não é como quando algo acontece na Rocinha. Estamos a duas horas da Zona Sul carioca.
Mas não é preciso sair daqui para estar ligado. “Televisão, Internet, isso fez com que a cidade diminuísse. O meio de transporte ainda é caótico mas melhorou muito, o comércio expandiu com a vinda dos shoppings. Hoje você vai encontrar aqui tudo o que quiser consumir.”
Mas livros, tem de procurar bastante. Um quiosque no shopping, uma biblioteca que daqui a pouco vamos ver, nenhuma livraria para quase 200 mil pessoas: eis Santa Cruz.
“Quando decidi adaptar Machado de Assis foi para combater isso, que o brasileiro não lê. Cara, o Machado devia ser o herói da periferia. Nasceu no Morro do Livramento, ainda pegou o Brasil escravocrata, era mulato, gago, só cursou até à quarta série e tinha epilepsia. Mas aprendeu outras línguas, fundou a Academia Brasileira de Letras e se tornou o maior escritor da literatura brasileira. Era um cara que tinha tudo para dar errado. Pode ter uma importância simbólica aqui. Porque aqui me dizem: ‘Você tem é de arrumar um emprego.’ Ou então: ‘Um dia você vai chegar na Globo.’ Como o Leonardo da Vinci diz, a gente só gosta do que conhece.” Tem que dar a conhecer, então.
Estamos diante do belo ex-matadouro de Santa Cruz, palacete de pedra restaurado que agora é o Ecomuseu, incluindo a tal biblioteca pública. Ao lado, a prefeitura do Rio instalou uma equipamento olímpico. “Meus pais fazem hidroginástica aqui. Isso mudou a vida deles. E trazem meu sobrinho para fazer aula de basquete, de futebol.”
Nova classe média. Enquanto isso um cavalo pasta nas ervas, em frente. Velha classe rural.
No Ecomuseu aparece Bruno Cruz, um mulato da região que trabalha como voluntário. “Foi desactivada a lei que dizia que só funcionários públicos podiam trabalhar aqui. Agora são pessoas da comunidade e voluntários.” Nas traseiras há uma sala com alto pé direito, cadeiras e um pequeno palco em cima do qual Alexandre fez uma apresentação da peça. “As 12 famílias que tínhamos visitado vieram para cá com os convidados, tivemos mais de 200 pessoas.” Nunca tinham entrado no palacete, tal como nunca tinham ido ao teatro. Mas entram no Facebook, onde os agendamentos foram lançados desde o começo. “‘Você quer teatro na sua casa?’ Em três dias já estava lotado. As pessoas convidavam os vizinhos para ir lá em casa no teatro.”
Um orgulho.
Não que tudo seja simples. “Os traficantes que estão saindo das comunidades pacificadas [na Zona Sul ou mais perto de lá] estão vindo directamente para cá, para uma comunidade chamada Rolas, onde praticamente todos os dias há tiroteio. Fomos fazer uma apresentação lá e passámos por três barreiras, uns troncos, um cara com um rádio: ‘São os artistas. Libera aí.’ E a senhora [que recebia a peça] morava do lado da boca de fumo [ponto de venda de droga]. Os caras com uma trouxa de dinheiro e outra de maconha, com metralhadora. A gente ficou meio tenso. Depois cheguei na casa, todo mundo na cerveja e a gente trazendo café. A dona da casa é empregada doméstica em Copacabana, volta duas vezes por semana para casa, não dá para voltar todo o dia. Deixa comida preparada para a semana toda. Os filhos crescem sozinhos e tem um que toca Bach, Villa-Lobos, lê partitura. A patroa dela vai muito ao teatro e comentou: ‘Como assim, vai ter teatro na sua casa? Está mais chique do que eu.’ E no fim tinha gente chorando porque nunca tinha visto teatro na vida.”
Durante anos, o pouco teatro que havia no subúrbio era uma cópia pobre da Zona Sul. Não é isso que interessa a Alexandre. “Não acho que deva estar fechado para a Zona Sul, quero dialogar com a cidade, circular. Quero muito estar em cartaz na Zona Sul, mas também aqui na casa de uma empregada doméstica. Ali me senti homenageando Brecht, [Augusto] Boal, Paulo Freire, [Leonardo] Boff. A questão não é que peça a gente vai fazer, mas sim o que é a gente vai discutir agora. Um jeito de estar na vida, na cidade.”
De tão longe, Santa Cruz é o lugar “onde o vento faz a curva”, diz. “Sempre escutei essa frase: ‘Nossa, como você mora longe.’ Mas eu estou morando longe de onde? Centro é onde você está.” E descobrir que aqui existe o último hangar de zepellin do mundo, ou a ponte dos jesuítas, ou o quartel onde morou a família real pode dar uma volta na cabeça. “Isso me fez ter uma história. Perceber que o bairro dormitório tinha uma história por trás. E as pessoas que eu amava estavam aqui.”
Tudo há-de estar no livro de contos que Alexandre tem em mãos, “Depois da Curva do Vento”, incluindo o seu bairro, Cesarão, a caminho do qual agora vamos, onde as ruas não tinham nome. “Isso me fez falta. Eu morava na rua 50, enquanto o outro [da Zona Sul] morava em Nossa Senhora de Copacabana. Era um não-pertencimento, esse sem-nome.”
O país está em campanha para as municipais. Cartazes de Marcelo Freixo, o candidato da esquerda apoiado por artistas como Caetano e Chico, e de Eduardo Paes, o actual prefeito que deverá ser reeleito. “A Zona Oeste é o maior curral eleitoral do Rio. Quem ganha aqui acaba eleito e o Eduardo Paes é muito forte aqui. Torço muito pelo Freixo, mas acho que vai ser difícil.”
Atravessamos o Rolas, o tal bairro onde os traficantes se estão a concentrar. Cesarão vem a seguir, casas térreas, igrejas evangélicas, carros de janela aberta a bombar funk em volta da pracinha, mototáxis. “Já vi a morte aqui e já vi festa de dia da criança aqui.”
O seu vizinho da frente, amigão até hoje, era o Marcus.
Marcus chega com um DVD, um livro e uma revista ao Bar do Mineiro, o melhor lugar do Rio para comer carne seca com abóbora. Vem da Lapa, onde tem o seu escritório, mora aqui, em Santa Teresa. Dois velhos pedaços da boémia carioca. Marcus Vinicius Faustini, 40 anos, um daqueles hiperactivos que não cabe no quadrado. Profissão? Actor, encenador, realizador, programador, escritor.
O DVD é “Carnaval, Bexiga, Funk e Sombrinha”, documentário assinado por ele. O livro é “Guia Afectivo da Periferia”, que o antropólogo Luiz Eduardo Soares descreve no prefácio como sendo tudo isto: “Romance de formação; etnografia urbana; história social do subúrbio carioca; flagrantes idiossincráticos da Baixada Fluminense; memórias; confissões; biografia precoce; fragmentos de um discurso amoroso sobre o Rio de Janeiro…” Por aí fora. A revista é sobre o projecto “Agência de Redes para a Juventude”, em seis favelas pacificadas do Rio de Janeiro, ou seja, com a presença de UPP’s (Unidade de Polícia Pacificadora).
Quem não conhece o Bar do Mineiro pense numa tasca lisboeta, azulejos, mesas de pedra gasta, bruá. E quando nos sentamos, com um copo de cada lado, Rio e futuro vão de enxurrada, na propulsão de Marcus, esse carioca como tantos filho de nordestinos, “um bando de pobres” vindos do sertão, avó com 18 filhos, analfabeta.
“Fui criado visitando essa família numerosa.” Da Cidade de Deus a Jacarezinho, da Baixada Fluminense a Santa Cruz, onde tios e primos estavam espalhados. “Cresci com minha mãe circulando a cidade, de ônibus, de trem. Não existe ‘Cidade Partida’, isso é um conceito de classe média que foi importante para unir a classe média no espanto de não existirem direitos [nos lugares pobres]. Os pobres sempre circularam. Foi uma educação para a circulação.”
Ele mesmo foi “punk, funkeiro, da Teologia da Libertação, do movimento estudantil”. E ao longo de tudo isso foi “encontrando a classe média”, a velha classe média que na verdade é média alta. “Tinha uma época que só tinha restaurante japonês no Leblon, onde a classe média fingia que vivia em Nova Iorque. Só que dentro desse restaurante havia um ‘sushiman’ que era da Rocinha mas não era narrado na história. E o que está acontecendo agora é que já não dá mais para ele ser invisível.”
Verdade que pobre também tinha medo de descer do morro, passar entre os ricos. “Minha mãe dizia: ‘Passe de cabeça baixa.’ Mas ela me deu esse encorajamento de circulação.” Que na cabeça de Marcos foi dar nisto: “Jovem da favela não é carente, é potente. Ele só está fora das redes e repertórios da cidade. Ainda está. Mas algumas já se abriram, como a do audiovisual.”
O que está em disputa é o país. “O Brasil pode ir para qualquer lugar. Mas nunca esteve tão em disputa e isso é bom. A maior invenção do Brasil é a cultura popular. O Brasil é desejante de cultura. Não é a toa que a mãe bota ao filho o nome John Lennon da Silva.”
O ponto é que quem filmava o pobre era a classe média, quem escrevia era a classe média. “O pobre já foi o homem tosco. Estou falando de Guimarães Rosa, onde a subjectividade se confunde com a terra. A classe média é que sempre representou o pobre. Pobre é invenção, pobreza é condição socio-económica.” Depois do “homem tosco”, pobre “foi o homem puro que veio para a cidade grande, que se deslumbrou, depois o bandido, depois o operário que temos que conquistar para fazer a revolução”. Em suma: “A classe média tem um fetiche em dizer quem é o pobre. O pobre ficou fora dos meios de produção e então inventou meios de cultura, de operar a linguagem, virou o ‘sushiman’ que fala engraçado. E a classe média ficou confusa: ‘Pô, eu aqui te representando e tu fica inventando coisas sem parar.’”
Vieram os anos 90, levando cultura para a favela. “Aí os jovens disseram: ‘Não queremos um encontro jesuítico, hierarquizado, em que você me diz o que é cultura. Queremos um encontro em que a gente encontre algo novo.’ Queriam quebrar os pobres como produto, comodity da indústria cultural.”
É este o princípio do projecto Redes. “A gente acaba com a ideia de oficina. O jovem chega com uma ideia, nós desenvolvemos e damos os recursos. Então, ele não vem ser aluno, vem ser criador. Ele é potente.”
No documentário e no livro, Marcus quis mostrar que “a memória também é popular”, não pertence só à elite. “Pobre também tem memória. Os judeus construíram toda a sua política pública com a memória. A arte inventa formas de estar na vida.”
Então, dos anos 90 para cá, diz, pobre deixou de querer ser representado pela “alvorada lá no morro, que beleza”, dos belos sambas de Cartola. “Não adianta cantar as belezas da favela. Tem que ser orgânico, ter acção para interferir e disputar o imaginário, os modos de produção, inventar escola de cinema, de teatro. Aí esses grupos começam a escrever livros, a produzir filmes, e acontece o governo do Lula que cria a inclusão económica e subjectiva do Bolsa Família, que leva o pobre a consumir além da luta pela sobrevivência. Começa a criar-se o mito da classe C, que os intelectuais chamam assim para controlar no campo do consumo. Uma forma de controlar é dizer: ‘Essa classe C só consome.’ Mas quem está fazendo banco comunitário? Cultura no território? Moeda alternativa de troca? Pessoas que todo o mundo chama de classe C. Então classe C é a vanguarda, mas não da representação. De inventar meios de produção. Menino da [velha] classe média faz manifesto. Menino de favela faz projecto porque quer inventar vida.”
É aqui que entra a novela. “‘Avenida Brasil’ é o momento em que os meios de produção já não podem representar o pobre subalterno, miserável. Então a novela tem um atravessamento, tem uma personagem [do subúrbio] que lê Kafka, os caras viajam. A novela não representa a classe C. É um atravessamento do país. É a Globo tentando dar conta de tudo o que está acontecendo no Brasil. É um desespero.” Enfim cortando com o maniqueísmo. “Se abriu para vários atravessamentos, representa o país, o momento em que a favela se mistura com a vanguarda. Tem celular que toca no meio de uma cena dramática, porque todo o mundo no Brasil agora tem celular. É a TV brasileira correndo atrás desse país.”
E tem muito para correr: “Radicalizar o processo de mistura, de circulação, de mobilidade: transformar a circulação em mobilidade. Todo o mundo tem que ter direito às suas máquinas expressivas. O Brasil ainda não experimentou 30 por cento da sua cultura por causa da herança escravocrata.”
Chapéu. Ou em gíria carioca: demorou.
(Público, 12-8-2012)
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http://blogues.publico.pt/atlantico-sul/2012/08/13/um-novo-brasil/
por Alexandra Lucas Coelho
Maria Aparecida da Silva Dias Carvalho segura a carteira azul contra o sol. É Inverno no bairro carioca da Gávea portanto dá para ficar ao sol à espera da fotografia. A carteira azul, assinada pelo empregador, prova que Aparecida trabalha como empregada doméstica. Esta novidade tem seis meses na vida dela e está a mudar o Brasil. Calcula-se que 52 milhões de brasileiros terão entrado na classe média desde 2003 até 2014: mais de cinco portugais em apenas 11 anos. E o importante desta nova classe média, aquilo que a torna sustentável, é a formalização do trabalho.
A Gávea tem o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Rio de Janeiro. Esta casa é um duplex no topo do prédio. Os donos, ambos advogados, passam o dia fora. A babá Luciana acaba de sair para ir buscar a criança ao colégio, de onde a levará à natação. “Estou aqui há quatro anos, tomando conta dessa benção, essa criança que amo de paixão”, disse ela antes de partir. “Mas não trabalho feriado, não trabalho sábado e domingo.” Nesses dias entra a folguista para a substituir. “E vou embora todos os dias. Se você mora na casa não tem hora para deitar. Vai do empregado se impôr. Hoje a gente não tem medo de ficar desempregada. Faz uma entrevista, se não está a fim, se não gosta do salário, das condições, não fica.” Um discurso que há 15 anos seria difícil de ouvir na hierarquizada sociedade brasileira.
É quando Luciana sai que a casa fica por conta de Aparecida, pelo menos nos dias em que não vem a faxineira, como hoje. Há um terceiro empregado diário, o motorista, mas o lugar dele é lá fora. Esquema comum nas classes A e B do Rio de Janeiro: babá, empregada, motorista, faxineira. Menos comum era que os patrões assinassem a carteira de trabalho, o que implica pagar, além do salário, impostos e férias, como agora acontece com Aparecida.
A terra dela é Petrópolis, a Sintra dos cariocas onde D. Pedro II ergueu o seu palácio de Verão e hoje há uma periferia de favelas. “Eu trabalhava lá para uma professora que dizia que quando arrumasse um serviço melhor assinava minha carteira, mas acabou que os anos foram passando”, resume Aparecida, sentada no terraço. “Gosto muito dela e ela de mim, ficou uma coisa assim de amizade. Depois ela não pôde ficar mais comigo, deixou de ter condições. Aí, fiquei desempregada.”
Aos 43 anos, com três filhas em casa, uma delas grávida pela segunda vez, e nenhum marido há muito. Criou as filhas sozinha? “Eu e Deus.” Evangélica da igreja Obra de Restauração, uma das muitas que proliferaram no Brasil pré-nova classe média.
“Eu estava já com quatro meses de aluguel atrasado, aí uma amiga me falou desse trabalho no Rio. Me disse: ‘Eu tomo conta das tuas filhas, vai nem que seja dois meses.’ Minha intenção era essa, dois meses para acertar o aluguel. Mas acabou que eu gostei. Eles [os patrões] são óptimos. No primeiro mês as meninas ficaram meio chorosas, mas eu saio sexta para Petrópolis às duas da tarde e volto segunda de manhã.”
Quatro dias e meio de trabalho que contam bem por cinco, porque Aparecida trabalha de manhã à noite. “A faxineira faz o trabalho mais pesado, lavar, limpar vidros. Eu dou uma limpeza na casa, cozinho e passo. Vim para cozinhar.”
Recebe 1400 reais limpos, mais 270 para os bilhetes de autocarro. Somando, 1670 reais (662 euros), o que põe Aparecida oficialmente na nova classe média: contando com as três filhas que dependem dela, o rendimento per capita dá 417,5 reais e, segundo os mais recentes critérios do governo brasileiro, classe média é o grupo composto por famílias com rendimento per capita entre 291 e 1019 reais. No total, 54% da população.
“Em vista do que eu ganhava, que era o salário mínimo, é um bom salário.” Foi a proposta do dono da casa, para quem trabalho informal estava fora de questão. “Eu nem queria carteira porque achava que ia ficar só dois meses, mas ele exigiu tudo direitinho. Entrei a 5 de Janeiro e a 5 de Fevereiro já me entregou a carteira.”
Diferenças?
“Quando fiquei quatro meses parada tive de fazer uma cirurgia. Se eu tivesse carteira assinada o INSS [segurança social] cobria. Agora, se eu precisar de ficar em casa, sei que vou ficar lá segurada. E se eu morrer hoje sei que as minhas filhas vão receber um salário.”
As casas da Zona Sul carioca tendem a ter pelo menos um quarto de empregada. É aí que Aparecida dorme, com a calculável vantagem de não gastar dinheiro em alojamento e alimentação e a incalculável desvantagem de não estar na própria casa. “Para mim é normal, só sinto falta das minhas filhas. Mas o quarto é confortável, tem televisão, fico vendo até hora que eu quero. E o que tem de comida, todo o mundo come igual.”
Ainda assim, mal consegue poupar. “Só tiro uns 50 reais por mês. O resto é aluguel, as filhas, luz, água, Internet que as crianças têm que ter para fazer pesquisa para a escola.” Um computador para as três, dois telemóveis para as mais velhas, todos os electrodomésticos, mais alguns extras. “Prometi às minhas filhas que quando receber o 13º vamos para a região dos Lagos. Agora posso pagar as roupas que pediam e coisas de comer mais caras, iogurte, biscoito recheado, fazer um lanche na rua. Posso pagar curso de informática à do meio e quero colocar ela num curso de inglês.”
Nova classe média também é informação, comunicação, redes. E o subúrbio a rir da Zona Sul, parando o país como há muito não se via: a Avenida Brasil, principal entrada e saída do Rio, dá nome à actual novela das 21h, “filet mignon” da Globo, com a relação patroa-empregada no centro nervoso da trama.
“Não queria ter uma patroa igual àquela de jeito nenhum”, comenta Aparecida. Empregada vai deixando de baixar a cabeça. “Eu tinha amigas que tinham vergonha de trabalhar em casa de família. Mas hoje acho que todo o mundo fala até com um pouco de orgulho.”
O plano de Aparecida é ter uma casa que seja sua.
“A queda da desigualdade é a grande componente brasileira”, diz o economista Marcelo Neri, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas e o mais reconhecido perito em classe média do país, autor de vários estudos sobre o assunto. “O crescimento do Brasil tem caído, mas a desigualdade segue em queda.”
E isso é que faz a diferença em relação aos restantes BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). “Nos outros, a desigualdade tem aumentado. O Brasil não cresce tanto quanto a China mas a desigualdade cai.”
Em 2011, a classe média brasileira estava com 105 milhões, mais 40 do que em 2003. Até 2014, mais 12 milhões vão juntar-se. “O principal símbolo dessa nova classe média não é o cartão de crédito, nem o carro, mas a carteira de trabalho, segurança para as pessoas, garantias que tornam esse grupo sustentável. E o crescimento da carteira de trabalho por sua vez foi impulsionado pela educação. É mais estrutural do que eu próprio acreditava quando fiz as pesquisas.”
Não se resume à caricatura do consumo, dos ecrãs LCD comprados a prestações no cartão de crédito. O índice do produtor — aquele que produz algo — “está crescendo mais 38% que o do consumo”. Em resumo: “A capacidade de consumo é mais consequência do que definição. O ponto é que esse consumidor veio para ficar porque está baseado no mercado de trabalho. Será um consumidor robusto no futuro. O Brasil está com um nível mínimo de desemprego.”
Representando 54% da população, e a crescer, esta classe média não é apenas um poder económico: “Pode decidir sozinha uma eleição.” E parece-se muito com a classe média mundial, diz Neri. “Não é americana, não é europeia, com dois carros e dois cachorros. Mas já tem dois filhos. A distribuição de renda brasileira é parecida com a do mundo. Na China ou na Índia, a nova classe média são pessoas que já tinham condições e melhoraram. No Brasil são pessoas que vieram de baixo.”
Como Aparecida da Silva. “A metade mais pobre do Brasil teve um crescimento 550% mais rápido que os 10% mais ricos”, explica o economista. “A desigualdade está no seu mínimo histórico.”
O Brasil é um país “de muita inércia, uma sociedade com pouca tendência a mudanças” e isso tem custos: “Como a gente acha que Deus é brasileiro, não poupa, não investe em educação.” Então, o que aconteceu “nos últimos 10, 12 anos” foi “um milagre social”, diz Neri. “Este crescimento tem qualidade. Para entender o Brasil, tem de separar a foto do filme. A foto ainda é muito ruim, com desigualdade, informalidade. Mas é muito menos ruim do que há 20 anos. E o brasileiro está feliz, optimista em relação ao futuro, o que é um traço cultural. Os dados comprovam isso.”
Por exemplo, o Índice de Felicidade Futura (ranking feito pela fundação a partir de dados do Gallup World Poll em 158 países), em que os inquiridos dão uma nota de 1 a 10 à sua vida daí a cinco anos. “O brasileiro dá 8,6. É a nota mais alta do mundo, entre 158 países, e já por quatro vezes. Aí, o Brasil é o país do futuro na cabeça no brasileiro. Não um ‘hard power’, mas um ‘soft power’. E no índice de felicidade futura é o 22º. Quando as pessoas saem de baixo, o nível de optimismo sobe muito.”
A novela “Avenida Brasil”, crê Marcelo Neri, mostra como essa nova classe média começou a ser objecto de atenção. “Não só ela está querendo se ver, como as elites não estão mais se vendo. A Rede Globo demorou, mas agora percebeu a mudança com toda a força e isso ajuda a propagar o processo. É uma coisa de grande importância, que representa a nova cena do Brasil.”
“Não quis fazer uma caricatura do subúrbio, ao contrário, quis debochar da Vieira Souto [marginal de Ipanema, morada de luxo]”, disse terça-feira ao “Globo” o autor da novela, João Emanuel Carneiro. “Os ricos hoje têm uma vida acomodada na riqueza” mas “o Lula e a Dilma esvaziaram essa visão positiva das elites”, e “o luxo já não enche os olhos visto na tela”. Além de que o dinheiro mudou de lugar e “a cultura está sucateada”. Ou seja: “Hoje, no Brasil, um encanador ou um comerciante ganham mais do que um professor universitário.”
Carneiro tem em cima dos ombros a pressão diária de milhões suspensos da batalha entre Carminha, a patroa suburbana, e Nina, a empregada vingativa. O PÚBLICO enviou-lhe um mail, sendo que, segundo o “Globo”, o roteirista está recluso num apartamento a escrever das três da tarde às três da manhã e não respondeu até à hora de fecho desta edição.
Mas um ano antes da estreia mergulhou no subúrbio de facto, nesses bairros de onde vem e onde continua a classe C, aquela que todos os mercados agora querem conquistar: companhias áreas e agentes de turismo, marcas de roupa e televisões a cabo.
“O João foi comigo várias vezes”, conta Anna Lee, a pesquisadora de “Avenida Brasil” a quem a equipa de roteiristas pode perguntar tudo diariamente. “Ele já tinha lugares e ideias na cabeça mas fez questão de ir. Fomos ver as casas, um clube de segunda divisão, o Shopping de Bangu, o Viaduto de Madureira.”
Bairro de escolas de samba históricas como a Portela ou a Império Serrano, Madureira aloja há 20 anos um baile charme, ou seja, uma festa de música negra para dançar. A novela inspirou-se nela e agora os queques da Zona Sul querem ir lá para o viaduto.
A mudança social também passa por essa inversão. Em vez da classe C vir para a Zona Sul, a Zona Sul vai para os bairros da classe C, ex-D/E.
“O interessante que a gente percebeu nas lojas é que é um lugar emergente mesmo”, lembra Anna Lee. “Há um outro dinheiro circulando lá, joalharias nos shoppings. As lojas da Zona Sul estão lá com outra estética. Eles têm as coisas que a gente tem mas da forma deles.”
O autor de “Avenida Brasil” tem mais cinco roteiristas a escrever com ele. Um deles é Alessandro Marson, 43 anos, que a repórter foi encontrar num apartamento de Copacabana, também imerso na pressão dos capítulos diários. Paulista do interior, filho de uma professora e de um dono de supermercado, acostumado aos subúrbios de Campinas, Alessandro tinha escrito cenas suburbanas numa outra novela e captou a atenção de João Emanuel Carneiro. “O João perguntou: ‘Quem está escrevendo essa parte suburbana?’ Depois me disse: ‘Gosto e vou precisar disso na minha novela.’”
Alessandro foi ler o que João já tinha escrito. “Achei que a grande inovação é que a mocinha [a empregada doméstica Nina] agia como vilã.” Não que seja necessariamente vilã, mas actuava como tal. “E a outra novidade é que tinha um núcleo da Zona Sul exclusivamente de comédia. Minha praia de escrita é a comédia, e normalmente os núcleos cómicos da novela acabam sendo suburbanos. ‘Avenida Brasil’ inverteu isso. Os ricos, aqui, moram no subúrbio, a tragédia está no subúrbio, e a comédia na Zona Sul, um homem com três mulheres, entra por uma porta, sai por outra, comédia em estado puro.”
São quase nove da noite, daqui a pouco vai para o ar o capítulo 112 e, como sempre, Alessandro vai sentar-se de iPad em frente à televisão. “Fico assistindo com o Twitter. As pessoas ficam comentando e fazendo perguntas. É uma forma muito rápida e quente de ver o que gostam ou não. Todo o mundo que fala da novela usa o tag “oioioi” mais número do capítulo. Está no topo todos os dias, é o assunto mais comentado do Brasil de segunda a sábado, e muitas vezes os outros tags mais comentados são nomes de personagens da novela.”
“Avenida Brasil” tornou-se um vício do novo Brasil, incluindo a elite blasé que nunca mais vira novela e agora adia jantares, teatros, concertos para ver a classe C ser protagonista.
“Os evangélicos pentecostais cresceram muito nas décadas perdidas da economia brasileira”, recorda o economista Marcelo Neri. Isso, entre os anos 80 e 90. Agora, “os católicos estão perdendo, mas crescem os protestantes tradicionais, os baptistas, os budistas, os espíritas”. Ou seja, “aumentou a diversidade e os pentecostais crescem menos, o que está associado à prosperidade”.
E esta nova classe média está a entrar no universo cultural, não apenas como espectadora, mas também como produtora ou agente. “Você está vendo gente pela primeira vez no teatro ou fazendo uma viagem de avião, e a primeira vez é muito importante”, comenta Neri. “Mas é uma classe que não está acostumada a ler. Isso gera preconceito da classe alta. Tal como existe um conflito de classes no aeroporto, porque a elite sempre teve os aeroportos vazios para ela. A nova classe média incomoda. Culturalmente tem muitas coisas acontecendo, mas não é a cultura tradicional. Está na periferia das cidades.”
Central do Brasil, a grande estação de comboios carioca que estabelece a ligação com as periferias. O comboio das 11h12 para Santa Cruz arranca para quase hora e meia de viagem. Santa Cruz é o extremo da Zona Oeste onde a cidade acaba, ou seja um dos confins do Rio de Janeiro. Para quem vem de carro, o fim da Avenida Brasil. Tantas caras mulatas como brancas na carruagem. O passageiro em frente lê o jornal “Extra” mas o passageiro ao lado lê o livro “Política Externa e Poder Militar no Brasil”. Os clichés não sobrevivem a uma viagem de comboio.
No fim da linha, entre centenas de pessoas a subir para a passagem aérea ou a sair para rua, aparece Alexandre Damascena, actor, encenador, um filho do bairro que aos 39 anos continua a morar no bairro e esta manhã será o anfitrião da reportagem.
“Estamos passando por mudanças muito grandes por causa do BRT, está vendo?” Aponta uma estação de autocarro sofisticada, do outro lado da rua. Os BRT são os autocarros rápidos, com vias exclusivas, que estão a ligar vários pontos da Zona Oeste, e ligarão a Barra da Tijuca ao aeroporto, pensando já nos Jogos Olímpicos de 2016. Enquanto falamos aparece um autocarro azul articulado, novinho em folha, a caminho da Barra.
“Uma viagem que durava uma hora e meia agora passa para 45 minutos”, diz Alexandre. “Tem um impacto muito grande na vida dos moradores.” Estamos em plena zona controlada pelas milícias, ex-polícias que funcionam como os gangues do tráfico, mas em vez de se dedicarem à droga controlam comércio e redes de transporte, como as carrinhas a que os cariocas chamam “vans”, muitas vezes o único meio de chegar a um lugar. “Onde tem dificuldade de transporte sempre acaba abrindo espaço para aparecer vans, que cobram sete reais até à Barra, enquanto este ônibus custa 2,75.”
Caminhamos para o velho carro de Alexandre, a bordo do qual iremos a sua casa, ainda distante. Ele continua a morar com os pais. “A minha mãe fala muito sobre a novela, as vizinhas falam, todo o mundo gosta muito. Essa empregada era a boazinha e agora está tão má quanto a outra [a patroa]. E muita coisa que a gente já viu mas não estava na Globo. Sai do estereótipo do bonzinho. O povo também é complexo. Quem mora na periferia é muito estereotipado nas novelas. Então quando aparece um personagem assim as pessoas pensam: ‘Eu vou ter de me enfrentar.’”
O carro está numa pracinha verde onde há uns anos nasceu a Faculdade Machado de Assis. “Universidade aqui é um fenómeno muito novo. Agora temos três privadas, mas não há nenhuma pública e as privadas estão lotadíssimas. As pessoas estão querendo estudar.”
Quando Alexandre tinha 14 anos e começou a fazer teatro nesta praça não havia nem lugar para ensaiar. “A gente é vizinha de Campo Grande que, tem muito comércio. Mas Santa Cruz tem uma relação com a história do Brasil. O quartel foi casa de D. Pedro II. Era a antiga Fazenda Santa Cruz.”
Lá iremos. Entretanto, basta olhar o outro lado da praça para achar vestígios do passado senhorial: um casarão meio em ruínas ainda habitado. Alexandre cresceu a sonhar que aquilo seria um centro cultural. Ainda não. E quando fundou a sua companhia, que é a Cia do Invisível, fundou também uma novidade na região: fazer as peças em casa das pessoas. “Porque aqui não tem teatro. O projecto chama-se Café com Machado. A gente adaptou ‘O Caso da Vara’, do Machado de Assis.” E incluem um lanche na representação, levam bolinhos, café para a casa anfitriã.
Depois de estudar teatro, Alexandre avançou para a literatura, está a fazer mestrado na UFRJ, a universidade federal do Rio de Janeiro, e gostava de fazer um mestrado em Portugal. Pensou em Coimbra, escreveu, responderam-lhe. Está aberto a outras sugestões. Precisa de achar uma bolsa.
Com tudo isto, atravessando o trânsito de Santa Cruz, ora urbana, ora rural, chegamos ao quartel que era a sede da fazenda. Aqui estiveram os jesuítas do século XVI ao século XVIII, depois a decadência, depois o monarca. Está restaurado, reluz em branco e turquesa. Ao mesmo tempo, não será estranho que se ouçam tiros.
“Onde o poder público não toma conta, vem o tráfico ou a milícia. E como aqui é muito afastado do centro as pessoas não ficam sabendo dos tiroteios, do armamento pesado. Rola uma certa impunidade.” Não é como quando algo acontece na Rocinha. Estamos a duas horas da Zona Sul carioca.
Mas não é preciso sair daqui para estar ligado. “Televisão, Internet, isso fez com que a cidade diminuísse. O meio de transporte ainda é caótico mas melhorou muito, o comércio expandiu com a vinda dos shoppings. Hoje você vai encontrar aqui tudo o que quiser consumir.”
Mas livros, tem de procurar bastante. Um quiosque no shopping, uma biblioteca que daqui a pouco vamos ver, nenhuma livraria para quase 200 mil pessoas: eis Santa Cruz.
“Quando decidi adaptar Machado de Assis foi para combater isso, que o brasileiro não lê. Cara, o Machado devia ser o herói da periferia. Nasceu no Morro do Livramento, ainda pegou o Brasil escravocrata, era mulato, gago, só cursou até à quarta série e tinha epilepsia. Mas aprendeu outras línguas, fundou a Academia Brasileira de Letras e se tornou o maior escritor da literatura brasileira. Era um cara que tinha tudo para dar errado. Pode ter uma importância simbólica aqui. Porque aqui me dizem: ‘Você tem é de arrumar um emprego.’ Ou então: ‘Um dia você vai chegar na Globo.’ Como o Leonardo da Vinci diz, a gente só gosta do que conhece.” Tem que dar a conhecer, então.
Estamos diante do belo ex-matadouro de Santa Cruz, palacete de pedra restaurado que agora é o Ecomuseu, incluindo a tal biblioteca pública. Ao lado, a prefeitura do Rio instalou uma equipamento olímpico. “Meus pais fazem hidroginástica aqui. Isso mudou a vida deles. E trazem meu sobrinho para fazer aula de basquete, de futebol.”
Nova classe média. Enquanto isso um cavalo pasta nas ervas, em frente. Velha classe rural.
No Ecomuseu aparece Bruno Cruz, um mulato da região que trabalha como voluntário. “Foi desactivada a lei que dizia que só funcionários públicos podiam trabalhar aqui. Agora são pessoas da comunidade e voluntários.” Nas traseiras há uma sala com alto pé direito, cadeiras e um pequeno palco em cima do qual Alexandre fez uma apresentação da peça. “As 12 famílias que tínhamos visitado vieram para cá com os convidados, tivemos mais de 200 pessoas.” Nunca tinham entrado no palacete, tal como nunca tinham ido ao teatro. Mas entram no Facebook, onde os agendamentos foram lançados desde o começo. “‘Você quer teatro na sua casa?’ Em três dias já estava lotado. As pessoas convidavam os vizinhos para ir lá em casa no teatro.”
Um orgulho.
Não que tudo seja simples. “Os traficantes que estão saindo das comunidades pacificadas [na Zona Sul ou mais perto de lá] estão vindo directamente para cá, para uma comunidade chamada Rolas, onde praticamente todos os dias há tiroteio. Fomos fazer uma apresentação lá e passámos por três barreiras, uns troncos, um cara com um rádio: ‘São os artistas. Libera aí.’ E a senhora [que recebia a peça] morava do lado da boca de fumo [ponto de venda de droga]. Os caras com uma trouxa de dinheiro e outra de maconha, com metralhadora. A gente ficou meio tenso. Depois cheguei na casa, todo mundo na cerveja e a gente trazendo café. A dona da casa é empregada doméstica em Copacabana, volta duas vezes por semana para casa, não dá para voltar todo o dia. Deixa comida preparada para a semana toda. Os filhos crescem sozinhos e tem um que toca Bach, Villa-Lobos, lê partitura. A patroa dela vai muito ao teatro e comentou: ‘Como assim, vai ter teatro na sua casa? Está mais chique do que eu.’ E no fim tinha gente chorando porque nunca tinha visto teatro na vida.”
Durante anos, o pouco teatro que havia no subúrbio era uma cópia pobre da Zona Sul. Não é isso que interessa a Alexandre. “Não acho que deva estar fechado para a Zona Sul, quero dialogar com a cidade, circular. Quero muito estar em cartaz na Zona Sul, mas também aqui na casa de uma empregada doméstica. Ali me senti homenageando Brecht, [Augusto] Boal, Paulo Freire, [Leonardo] Boff. A questão não é que peça a gente vai fazer, mas sim o que é a gente vai discutir agora. Um jeito de estar na vida, na cidade.”
De tão longe, Santa Cruz é o lugar “onde o vento faz a curva”, diz. “Sempre escutei essa frase: ‘Nossa, como você mora longe.’ Mas eu estou morando longe de onde? Centro é onde você está.” E descobrir que aqui existe o último hangar de zepellin do mundo, ou a ponte dos jesuítas, ou o quartel onde morou a família real pode dar uma volta na cabeça. “Isso me fez ter uma história. Perceber que o bairro dormitório tinha uma história por trás. E as pessoas que eu amava estavam aqui.”
Tudo há-de estar no livro de contos que Alexandre tem em mãos, “Depois da Curva do Vento”, incluindo o seu bairro, Cesarão, a caminho do qual agora vamos, onde as ruas não tinham nome. “Isso me fez falta. Eu morava na rua 50, enquanto o outro [da Zona Sul] morava em Nossa Senhora de Copacabana. Era um não-pertencimento, esse sem-nome.”
O país está em campanha para as municipais. Cartazes de Marcelo Freixo, o candidato da esquerda apoiado por artistas como Caetano e Chico, e de Eduardo Paes, o actual prefeito que deverá ser reeleito. “A Zona Oeste é o maior curral eleitoral do Rio. Quem ganha aqui acaba eleito e o Eduardo Paes é muito forte aqui. Torço muito pelo Freixo, mas acho que vai ser difícil.”
Atravessamos o Rolas, o tal bairro onde os traficantes se estão a concentrar. Cesarão vem a seguir, casas térreas, igrejas evangélicas, carros de janela aberta a bombar funk em volta da pracinha, mototáxis. “Já vi a morte aqui e já vi festa de dia da criança aqui.”
O seu vizinho da frente, amigão até hoje, era o Marcus.
Marcus chega com um DVD, um livro e uma revista ao Bar do Mineiro, o melhor lugar do Rio para comer carne seca com abóbora. Vem da Lapa, onde tem o seu escritório, mora aqui, em Santa Teresa. Dois velhos pedaços da boémia carioca. Marcus Vinicius Faustini, 40 anos, um daqueles hiperactivos que não cabe no quadrado. Profissão? Actor, encenador, realizador, programador, escritor.
O DVD é “Carnaval, Bexiga, Funk e Sombrinha”, documentário assinado por ele. O livro é “Guia Afectivo da Periferia”, que o antropólogo Luiz Eduardo Soares descreve no prefácio como sendo tudo isto: “Romance de formação; etnografia urbana; história social do subúrbio carioca; flagrantes idiossincráticos da Baixada Fluminense; memórias; confissões; biografia precoce; fragmentos de um discurso amoroso sobre o Rio de Janeiro…” Por aí fora. A revista é sobre o projecto “Agência de Redes para a Juventude”, em seis favelas pacificadas do Rio de Janeiro, ou seja, com a presença de UPP’s (Unidade de Polícia Pacificadora).
Quem não conhece o Bar do Mineiro pense numa tasca lisboeta, azulejos, mesas de pedra gasta, bruá. E quando nos sentamos, com um copo de cada lado, Rio e futuro vão de enxurrada, na propulsão de Marcus, esse carioca como tantos filho de nordestinos, “um bando de pobres” vindos do sertão, avó com 18 filhos, analfabeta.
“Fui criado visitando essa família numerosa.” Da Cidade de Deus a Jacarezinho, da Baixada Fluminense a Santa Cruz, onde tios e primos estavam espalhados. “Cresci com minha mãe circulando a cidade, de ônibus, de trem. Não existe ‘Cidade Partida’, isso é um conceito de classe média que foi importante para unir a classe média no espanto de não existirem direitos [nos lugares pobres]. Os pobres sempre circularam. Foi uma educação para a circulação.”
Ele mesmo foi “punk, funkeiro, da Teologia da Libertação, do movimento estudantil”. E ao longo de tudo isso foi “encontrando a classe média”, a velha classe média que na verdade é média alta. “Tinha uma época que só tinha restaurante japonês no Leblon, onde a classe média fingia que vivia em Nova Iorque. Só que dentro desse restaurante havia um ‘sushiman’ que era da Rocinha mas não era narrado na história. E o que está acontecendo agora é que já não dá mais para ele ser invisível.”
Verdade que pobre também tinha medo de descer do morro, passar entre os ricos. “Minha mãe dizia: ‘Passe de cabeça baixa.’ Mas ela me deu esse encorajamento de circulação.” Que na cabeça de Marcos foi dar nisto: “Jovem da favela não é carente, é potente. Ele só está fora das redes e repertórios da cidade. Ainda está. Mas algumas já se abriram, como a do audiovisual.”
O que está em disputa é o país. “O Brasil pode ir para qualquer lugar. Mas nunca esteve tão em disputa e isso é bom. A maior invenção do Brasil é a cultura popular. O Brasil é desejante de cultura. Não é a toa que a mãe bota ao filho o nome John Lennon da Silva.”
O ponto é que quem filmava o pobre era a classe média, quem escrevia era a classe média. “O pobre já foi o homem tosco. Estou falando de Guimarães Rosa, onde a subjectividade se confunde com a terra. A classe média é que sempre representou o pobre. Pobre é invenção, pobreza é condição socio-económica.” Depois do “homem tosco”, pobre “foi o homem puro que veio para a cidade grande, que se deslumbrou, depois o bandido, depois o operário que temos que conquistar para fazer a revolução”. Em suma: “A classe média tem um fetiche em dizer quem é o pobre. O pobre ficou fora dos meios de produção e então inventou meios de cultura, de operar a linguagem, virou o ‘sushiman’ que fala engraçado. E a classe média ficou confusa: ‘Pô, eu aqui te representando e tu fica inventando coisas sem parar.’”
Vieram os anos 90, levando cultura para a favela. “Aí os jovens disseram: ‘Não queremos um encontro jesuítico, hierarquizado, em que você me diz o que é cultura. Queremos um encontro em que a gente encontre algo novo.’ Queriam quebrar os pobres como produto, comodity da indústria cultural.”
É este o princípio do projecto Redes. “A gente acaba com a ideia de oficina. O jovem chega com uma ideia, nós desenvolvemos e damos os recursos. Então, ele não vem ser aluno, vem ser criador. Ele é potente.”
No documentário e no livro, Marcus quis mostrar que “a memória também é popular”, não pertence só à elite. “Pobre também tem memória. Os judeus construíram toda a sua política pública com a memória. A arte inventa formas de estar na vida.”
Então, dos anos 90 para cá, diz, pobre deixou de querer ser representado pela “alvorada lá no morro, que beleza”, dos belos sambas de Cartola. “Não adianta cantar as belezas da favela. Tem que ser orgânico, ter acção para interferir e disputar o imaginário, os modos de produção, inventar escola de cinema, de teatro. Aí esses grupos começam a escrever livros, a produzir filmes, e acontece o governo do Lula que cria a inclusão económica e subjectiva do Bolsa Família, que leva o pobre a consumir além da luta pela sobrevivência. Começa a criar-se o mito da classe C, que os intelectuais chamam assim para controlar no campo do consumo. Uma forma de controlar é dizer: ‘Essa classe C só consome.’ Mas quem está fazendo banco comunitário? Cultura no território? Moeda alternativa de troca? Pessoas que todo o mundo chama de classe C. Então classe C é a vanguarda, mas não da representação. De inventar meios de produção. Menino da [velha] classe média faz manifesto. Menino de favela faz projecto porque quer inventar vida.”
É aqui que entra a novela. “‘Avenida Brasil’ é o momento em que os meios de produção já não podem representar o pobre subalterno, miserável. Então a novela tem um atravessamento, tem uma personagem [do subúrbio] que lê Kafka, os caras viajam. A novela não representa a classe C. É um atravessamento do país. É a Globo tentando dar conta de tudo o que está acontecendo no Brasil. É um desespero.” Enfim cortando com o maniqueísmo. “Se abriu para vários atravessamentos, representa o país, o momento em que a favela se mistura com a vanguarda. Tem celular que toca no meio de uma cena dramática, porque todo o mundo no Brasil agora tem celular. É a TV brasileira correndo atrás desse país.”
E tem muito para correr: “Radicalizar o processo de mistura, de circulação, de mobilidade: transformar a circulação em mobilidade. Todo o mundo tem que ter direito às suas máquinas expressivas. O Brasil ainda não experimentou 30 por cento da sua cultura por causa da herança escravocrata.”
Chapéu. Ou em gíria carioca: demorou.
(Público, 12-8-2012)
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http://blogues.publico.pt/atlantico-sul/2012/08/13/um-novo-brasil/
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
terça-feira, 7 de agosto de 2012
sábado, 21 de julho de 2012
sexta-feira, 20 de julho de 2012
sábado, 14 de julho de 2012
do que eu sei
tem dias
que sou toda amor
tem dias
que sou toda dor
tem dias
que eu não consigo acordar
que sou toda amor
tem dias
que sou toda dor
tem dias
que eu não consigo acordar
domingo, 1 de julho de 2012
sábado, 30 de junho de 2012
Dagguinho! Feliz Aniversário!
Maninho!
...era o caminho para uma aproximação entre nós mais espontânea e talvez reveladora...
Hoje é aniversário do meu imão mais velho. Parabéns! Ele não tem facebook, o que só aumenta meu orgulho por esse ser. Talvez não precisasse nem expor aqui os meus parabéns. Um telefonema bastasse para parabenizá-lo. Mas sinto uma necessidade enorme de dizer o quanto essa pessoa é importante na minha vida. E acho que um dia especial, pode ser o momento mais adequado e possível de formalidades.
Cresci com ele no meu pé, ou eu no pé dele. Já não sei?! O que sei é que ele me ajuda, sempre, a me tornar mulher. Ele tira todas, ou quase todas as minhas dúvidas sobre os relacionamentos amorosos. Ele me diz, o que é um comportamento adequado. Ele me pede, carinhosamente, pra eu falar mais baixo, quase o tempo inteiro, e isso não me incomoda. Ele faz piadas bobas, só pra me ouvir sorrir. Ele me levava no dentista. Ele cozinhava o arroz, ele fritava o bife. Ele não dorme, hiberna.
Ele demonstra seu amor sem eu nem perceber. Ele quer que eu o acompanhe só pra me agradar. Porque adoro conhecer os seus amigos. Vai que eu me apaixone!? Muitas roupas dele foram passadas pra mim, na nossa infância-adolescência.
Ele é o melhor jogador de futebol do mundo (nos times de várzea). Ele tem um gosto musical refinado, as vezes. Puxou um tipo de organização muito parecida com o Paizinho. Ele se preocupa comigo, e com as minhas “maluquices”. Sei o quanto me observa e tem um olhar clínico para, quase, tudo que eu faço ou apronto. Tenho na lembrança inúmeros momentos nossos dos diálogos mais eficazes pra minha vida. Vou relatar um desses, certa vez eu tinha muitos exercícios de química para fazer, e não conseguia chegar na resposta certa; muita dificuldade. A Mãe pediu para que ele me ajudasse a resolver os exercícios e ele o fez, quando viu que eu “não entendia muito o que parecia meio óbvio”, me perguntou: - Talitta, como você passou de ano?! Não é possível! Rsrs... Hoje acho graça de muitas coisas! Mas ele é um dos seres humanos que mais admiro na vida. E ele sabe o quanto sou grata por tudo sempre. Ele é o meu Maninho, o primogênito, o que tem o nome diferente e lindo – Daggo –. O melhor irmão. Meu amor é todo teu!
Quero te desejar tudo de bom nesse dia especialmente, e em todos os outros da tua vida. Você merece as melhores coisas do mundo.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
meus 26 anos
Em breve publicarei algo mais específico. Por ora adorei esse conto quando eu li.
.......................................
Por Lygia Fagundes Telles,
Disco Voador
Ubatuba é uma deliciosa praia do litoral paulista: despojada, simples, ela como que se preservou das tentações de um mundanismo sofisticado e lá se conserva com suas praias ainda intactas e sua cidadezinha de sabor colonial: muitos barcos de pesca, muita batida de maracujá, muita banana-ouro e prata, muita bananada do tipo caseiro. O cinema à noite com velhos filmes de terror. O parque de diversões com sua roda-gigante e suas barracas de tiro ao alvo de inatingíveis alvos. E o silêncio.
Foi do terraço de uma casa nessa praia que Paulo Emílio, o jardineiro e eu vimos um objeto não identificado e que se convencionou chamar de disco voador.
Hesitei em narrar esse episódio porque pude bem imaginar os sorrisos e os olhares desconfiados das pessoas fazendo aquelas caras, disco voador? Tudo invenção de ficcionista, é claro? Acabei me decidindo: uma escritora não pode se recusar a dar testemunho de fatos do seu tempo.
Dia 5 de fevereiro. Três horas da tarde. Estirada numa cadeira de lona eu lia um livro de poesias e ouvia – era bom de ouvir – o barulho das ondas batendo espumosas nas pedras que se erguem defronte do terraço que dá para o mar alto. Céu cinzento, a névoa baixando como uma lâmina de aço até a linha do horizonte. Calor e calma. Então ouvi Paulo Emílio, que estava sentado ao lado, dizer num tom de voz meio vago: “Olha lá... Tem uma coisa no céu”. Prossegui lendo e logo ele retornou: “Está brilhando tanto! Vai ver é um disco voador”. Respondi sem erguer o olhar: Dê-lhe minhas lembranças.
Mas ele se levantou de repente, assim num susto, a voz emocionada: “Depressa! Venha ver!...”. Levantei-me e olhei na direção que ele indicou: uma grande luz branca, de forma irregular, cintilava como uma estranha estrela no fundo de aço do céu. Como uma estranha estrela porque era maior do que uma estrela. A luz mais clara, sem as cintilações vermelho-azuladas, luz branca feito a luz de um raio, imóvel no primeiro instante. Porque logo em seguida iniciou um movimento de deslocação para a esquerda e para o fundo do céu. Um helicóptero? Foi o que me ocorreu no primeiro momento. Não, não era um helicóptero. Um balão? Não, nunca um balão faria aquele movimento que se acelerava tanto que tive a impressão de que a coisa ia cair no mar. Mas assim que ficou alguns dedos apenas acima da linha do horizonte, a coisa começou sua marcha da esquerda para a direita, apagando e acendendo, apagando e acendendo num ritmo de pulsação tum-tum, tum-tum – um coração silencioso palpitando rápido e fugindo, levantei a mão e fui abrindo e fechando os dedos para imitar seu palpitar, tum-tum, mais longe ainda! Tum-tum – gritei pelo jardineiro que estava lidando com suas folhagens, Depressa, venha ver depressa. Queria o testemunho de um caiçara tosco. Foi a terceira testemunha: pôs as mãos em concha em torno dos olhos, estava vendo, sim, representava uma estrela mas como uma estrela pode andar desse jeito e no dia claro?
Quanto tempo teria durado essa segunda fase do objeto acendendo e apagando compassadamente na sua marcha horizontal? Dois minutos: três? Foi como se a Terra tivesse parado, tudo parado em redor, o mar petrificado, os pássaros mudos, nem brisa nem folha, também nós estáticos – só a luz branca se movendo na amplidão, o acender cada vez mais reduzido, não passava agora de um pontinho do tamanho da cabeça de um alfinete. Desapareceu.
Um meteoro? Um satélite? Ou a explosão de uma estrela? Mas aquele movimento regular da luz apagando e acendendo na sua marcha controlada como uma lâmpada – aquele movimento de um coração mecânico. E então? Decididamente, o que há entre o céu e a terra ultrapassa nossa vã enumeração.
(do livro, A disciplina do Amor)
.......................................
Por Lygia Fagundes Telles,
Disco Voador
Ubatuba é uma deliciosa praia do litoral paulista: despojada, simples, ela como que se preservou das tentações de um mundanismo sofisticado e lá se conserva com suas praias ainda intactas e sua cidadezinha de sabor colonial: muitos barcos de pesca, muita batida de maracujá, muita banana-ouro e prata, muita bananada do tipo caseiro. O cinema à noite com velhos filmes de terror. O parque de diversões com sua roda-gigante e suas barracas de tiro ao alvo de inatingíveis alvos. E o silêncio.
Foi do terraço de uma casa nessa praia que Paulo Emílio, o jardineiro e eu vimos um objeto não identificado e que se convencionou chamar de disco voador.
Hesitei em narrar esse episódio porque pude bem imaginar os sorrisos e os olhares desconfiados das pessoas fazendo aquelas caras, disco voador? Tudo invenção de ficcionista, é claro? Acabei me decidindo: uma escritora não pode se recusar a dar testemunho de fatos do seu tempo.
Dia 5 de fevereiro. Três horas da tarde. Estirada numa cadeira de lona eu lia um livro de poesias e ouvia – era bom de ouvir – o barulho das ondas batendo espumosas nas pedras que se erguem defronte do terraço que dá para o mar alto. Céu cinzento, a névoa baixando como uma lâmina de aço até a linha do horizonte. Calor e calma. Então ouvi Paulo Emílio, que estava sentado ao lado, dizer num tom de voz meio vago: “Olha lá... Tem uma coisa no céu”. Prossegui lendo e logo ele retornou: “Está brilhando tanto! Vai ver é um disco voador”. Respondi sem erguer o olhar: Dê-lhe minhas lembranças.
Mas ele se levantou de repente, assim num susto, a voz emocionada: “Depressa! Venha ver!...”. Levantei-me e olhei na direção que ele indicou: uma grande luz branca, de forma irregular, cintilava como uma estranha estrela no fundo de aço do céu. Como uma estranha estrela porque era maior do que uma estrela. A luz mais clara, sem as cintilações vermelho-azuladas, luz branca feito a luz de um raio, imóvel no primeiro instante. Porque logo em seguida iniciou um movimento de deslocação para a esquerda e para o fundo do céu. Um helicóptero? Foi o que me ocorreu no primeiro momento. Não, não era um helicóptero. Um balão? Não, nunca um balão faria aquele movimento que se acelerava tanto que tive a impressão de que a coisa ia cair no mar. Mas assim que ficou alguns dedos apenas acima da linha do horizonte, a coisa começou sua marcha da esquerda para a direita, apagando e acendendo, apagando e acendendo num ritmo de pulsação tum-tum, tum-tum – um coração silencioso palpitando rápido e fugindo, levantei a mão e fui abrindo e fechando os dedos para imitar seu palpitar, tum-tum, mais longe ainda! Tum-tum – gritei pelo jardineiro que estava lidando com suas folhagens, Depressa, venha ver depressa. Queria o testemunho de um caiçara tosco. Foi a terceira testemunha: pôs as mãos em concha em torno dos olhos, estava vendo, sim, representava uma estrela mas como uma estrela pode andar desse jeito e no dia claro?
Quanto tempo teria durado essa segunda fase do objeto acendendo e apagando compassadamente na sua marcha horizontal? Dois minutos: três? Foi como se a Terra tivesse parado, tudo parado em redor, o mar petrificado, os pássaros mudos, nem brisa nem folha, também nós estáticos – só a luz branca se movendo na amplidão, o acender cada vez mais reduzido, não passava agora de um pontinho do tamanho da cabeça de um alfinete. Desapareceu.
Um meteoro? Um satélite? Ou a explosão de uma estrela? Mas aquele movimento regular da luz apagando e acendendo na sua marcha controlada como uma lâmpada – aquele movimento de um coração mecânico. E então? Decididamente, o que há entre o céu e a terra ultrapassa nossa vã enumeração.
(do livro, A disciplina do Amor)
domingo, 17 de junho de 2012
Girassol
Chegou meu Gira Girassol. Lindo.
gi.ras.sol
Substantivo masculino. Bot.
Planta das compostas, de grandes flores amarelas e frutos (pop. ditos sementes) que fornecem óleo comestível; helianto. [Pl.: –sóis.]
.......................
...................................
a dúvida não desinflama
enquanto a gente não se der
gi.ras.sol
Substantivo masculino. Bot.
Planta das compostas, de grandes flores amarelas e frutos (pop. ditos sementes) que fornecem óleo comestível; helianto. [Pl.: –sóis.]
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a dúvida não desinflama
enquanto a gente não se der
Rocinha + Luiz Eduardo Soares
ainda digerindo
..................
Escutar Luiz Eduardo Soares quase dois anos depois fez toda diferença.
..................
Escutar Luiz Eduardo Soares quase dois anos depois fez toda diferença.
sábado, 16 de junho de 2012
por algum outro olhar
Para e olha pra mim
Para e deixa pra lá
Deixa eu entrar em você por algum olhar
Deixa eu gostar de você
Teus medos posso curar
Deixa eu levar tua vida pra outro lugar
Para e olha pra mim
Vê que já basta olhar
Deixa eu plantar um carinho no teu peito inquieto
Para e deixa pra lá
Deixa eu entrar em você por algum olhar
Deixa eu gostar de você
Teus medos posso curar
Deixa eu levar tua vida pra outro lugar
Para e olha pra mim
Vê que já basta olhar
Deixa eu plantar um carinho no teu peito inquieto
sexta-feira, 15 de junho de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
cinema
sexta-feira, 8 de junho de 2012
fala
fa.la
Substantivo feminino.
1.Ação ou faculdade de falar (1).
2.P. ext. Emissão de sons por animais; voz.
3.Timbre da voz; voz.
4.Discurso (1).
...........
Hoje eu falei e parece que saí do lugar.
Esses dias tenho tido sonhos estranhos. Na verdade acho que os sonhos são estranhos para todos. As vezes fico muito tempo sem lembrar e nem dou atenção. Mas ultimamente está demais. Essa noite vinha uma pergunta, "aquilo que me move?", ou "o que me move?". E eu tentava responder. Eram muitas pessoas me perguntando. Lembro de uma resposta, "acho que sou movida pelo medo". Mas eu pensava em outras respostas que agora não lembro. Foi bem confuso. Ando bem confusa ultimamente, deve ser o mês de aniversário. Cheia de dúvidas. E essa publicação nem era pra ser sobre isso. Mas vou deixar assim. Está bem íntima. Qualquer coisa eu mudo depois. (Acho que sou movida pelo erro)
Substantivo feminino.
1.Ação ou faculdade de falar (1).
2.P. ext. Emissão de sons por animais; voz.
3.Timbre da voz; voz.
4.Discurso (1).
...........
Hoje eu falei e parece que saí do lugar.
Esses dias tenho tido sonhos estranhos. Na verdade acho que os sonhos são estranhos para todos. As vezes fico muito tempo sem lembrar e nem dou atenção. Mas ultimamente está demais. Essa noite vinha uma pergunta, "aquilo que me move?", ou "o que me move?". E eu tentava responder. Eram muitas pessoas me perguntando. Lembro de uma resposta, "acho que sou movida pelo medo". Mas eu pensava em outras respostas que agora não lembro. Foi bem confuso. Ando bem confusa ultimamente, deve ser o mês de aniversário. Cheia de dúvidas. E essa publicação nem era pra ser sobre isso. Mas vou deixar assim. Está bem íntima. Qualquer coisa eu mudo depois. (Acho que sou movida pelo erro)
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Aniversários
para a melhor irmã do mundo
O mês de junho é o nosso mês! E lá vou eu demonstrar todo meu amor pela irmã que tenho. Hoje é o aniversário dela. Nosso irmão, Daggo, adora falar uma frase pra mim, que é assim: “Talitta, quando você nasceu eu já andava”. Hoje vou dizer pra você: - “Maninha, quando você nasceu eu já andava e o Daggo já falava”. Feliz Aniversário.
Pelas minhas contas esse deve ser o seu nono aniversário sem a minha presença. E tenho certeza que a distância não mudou nada nosso sentimento. Só nos fez amadurecer e nos tornarmos pessoas melhores. Se é que isso existe! Resolvi fazer um apanhado de coisas pra te desejar um dia especial.
Primeiro dizer que só consigo enxergar tuas qualidades. É impressionante como tenho facilidade para ver o lado bom das pessoas, talvez essa seja a minha qualidade. Há muito tempo você me escreveu um texto lindo que guardo com muito carinho e que me ajudou a ver tudo de outro ângulo. Por isso, depois que conheci essa frase “teu olhar melhora o meu”, não canso de reproduzi-la pra você. Serei eternamente grata por você existir na minha vida, do jeito que você é. E ser a melhor irmã do mundo pra mim.
Aquela que se irrita com o meu riso, e não tem vergonha de me pedir um abraço. Aquela que olha nos meus olhos e não precisa dizer mais nada. Aquela que me explica a mesma coisa milhões de vezes, porque compreende meu excesso de dispersão quase ‘naturalmente’. Aquela que canta todas as músicas comigo. Que acorda cedo quando eu peço. Aquela que me enche de referências intelectuais. Aquela que não tem paciência para alguns dos meus amigos, e de outros até não gosta muito. Aquela que tem um nível de inteligência acima da média. E não tem vergonha da sua irmã medíocre, porque sabe que a irmã medíocre não é muito chegada a estereótipos e “pejorativismos” (ser medíocre, ser mediano, na média, na medida, no meio; não pode ser ruim). Aquela que é séria quando necessário, e alegre quando não consegue ser séria. Aquela que me escuta, me entende e me aconselha. Aquela que chora escondida, porque na minha frente é uma fortaleza. Aquela que é irmã e amiga. Aquela que é amor e dor. Aquela que guarda os meus segredos e tenta me poupar dos dela. Aquela que é corajosa, que tem os sonhos mais loucos e os realiza. Aquela que gosta de museus e exposições. Que gosta de shows e gosta de andar, como eu. Aquela que é bibliófila e tem super poderes de homem-aranha. Aquela que quase não têm medos e me parece muito mais destemida a cada ano que passa. Aquela que também está ficando “velha e louca”, como todos. Te desejo sempre o melhor da vida todos os dias. Porque você merece. E conte comigo sempre que quiser e precisar. Eu te amo muito e não cabe aqui o meu amor.
para o Tio Cristiano
Tio Feliz Aniversário! O surfista e capoeirista mais bonito do Campeche. Aquele que faz as pizzas mais incríveis, os melhores churrascos, e que sabe cuidar de um jardim como ninguém. Além de ser um excelente Marido e Pai. Tenho o maior orgulho de ser sua sobrinha. E quero te desejar tudo de melhor nessa data especial. Você é muito importante na minha vida. Saiba disso. Lembro de muitos momentos nossos com alegria. Te amo. Beijo grande. Aproveite o dia!
O mês de junho é o nosso mês! E lá vou eu demonstrar todo meu amor pela irmã que tenho. Hoje é o aniversário dela. Nosso irmão, Daggo, adora falar uma frase pra mim, que é assim: “Talitta, quando você nasceu eu já andava”. Hoje vou dizer pra você: - “Maninha, quando você nasceu eu já andava e o Daggo já falava”. Feliz Aniversário.
Pelas minhas contas esse deve ser o seu nono aniversário sem a minha presença. E tenho certeza que a distância não mudou nada nosso sentimento. Só nos fez amadurecer e nos tornarmos pessoas melhores. Se é que isso existe! Resolvi fazer um apanhado de coisas pra te desejar um dia especial.
Primeiro dizer que só consigo enxergar tuas qualidades. É impressionante como tenho facilidade para ver o lado bom das pessoas, talvez essa seja a minha qualidade. Há muito tempo você me escreveu um texto lindo que guardo com muito carinho e que me ajudou a ver tudo de outro ângulo. Por isso, depois que conheci essa frase “teu olhar melhora o meu”, não canso de reproduzi-la pra você. Serei eternamente grata por você existir na minha vida, do jeito que você é. E ser a melhor irmã do mundo pra mim.
Aquela que se irrita com o meu riso, e não tem vergonha de me pedir um abraço. Aquela que olha nos meus olhos e não precisa dizer mais nada. Aquela que me explica a mesma coisa milhões de vezes, porque compreende meu excesso de dispersão quase ‘naturalmente’. Aquela que canta todas as músicas comigo. Que acorda cedo quando eu peço. Aquela que me enche de referências intelectuais. Aquela que não tem paciência para alguns dos meus amigos, e de outros até não gosta muito. Aquela que tem um nível de inteligência acima da média. E não tem vergonha da sua irmã medíocre, porque sabe que a irmã medíocre não é muito chegada a estereótipos e “pejorativismos” (ser medíocre, ser mediano, na média, na medida, no meio; não pode ser ruim). Aquela que é séria quando necessário, e alegre quando não consegue ser séria. Aquela que me escuta, me entende e me aconselha. Aquela que chora escondida, porque na minha frente é uma fortaleza. Aquela que é irmã e amiga. Aquela que é amor e dor. Aquela que guarda os meus segredos e tenta me poupar dos dela. Aquela que é corajosa, que tem os sonhos mais loucos e os realiza. Aquela que gosta de museus e exposições. Que gosta de shows e gosta de andar, como eu. Aquela que é bibliófila e tem super poderes de homem-aranha. Aquela que quase não têm medos e me parece muito mais destemida a cada ano que passa. Aquela que também está ficando “velha e louca”, como todos. Te desejo sempre o melhor da vida todos os dias. Porque você merece. E conte comigo sempre que quiser e precisar. Eu te amo muito e não cabe aqui o meu amor.
para o Tio Cristiano
Tio Feliz Aniversário! O surfista e capoeirista mais bonito do Campeche. Aquele que faz as pizzas mais incríveis, os melhores churrascos, e que sabe cuidar de um jardim como ninguém. Além de ser um excelente Marido e Pai. Tenho o maior orgulho de ser sua sobrinha. E quero te desejar tudo de melhor nessa data especial. Você é muito importante na minha vida. Saiba disso. Lembro de muitos momentos nossos com alegria. Te amo. Beijo grande. Aproveite o dia!
domingo, 3 de junho de 2012
de Ferréz a Mano Melo
Passando por O amor nos Tempos do Cólera e Guia Afetivo da Periferia.
Isso é FLUPPensa e Sarau de Aniversário da Rafaelle Monteiro de Castro. Isso é vida.
Isso é FLUPPensa e Sarau de Aniversário da Rafaelle Monteiro de Castro. Isso é vida.
sábado, 2 de junho de 2012
domingo, 27 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
Manguinhos
FLUPPensa
(http://flupp2.hospedagemdesites.ws/)
Sempre andei muito pela cidade do Rio de Janeiro, porque desde meu primeiro contato com esta cidade percebi, no momento que cheguei na rodoviária, que a cidade maravilhosa não era só aquela que passava na TV há mais de 10 anos. Acho que foi em 2001 que estive aqui pela primeira vez e “aprontei todas literalmente” (nunca falei sobre isso aqui e acho que nunca vou contar, é uma história que resolvi apagar da memória). Eu tinha 15 anos e era a menina revolucionária mais chata e rebelde do mundo. Passamos o Natal em Nilópolis e “conquistei” um amigo pra vida. Depois “botei uma gatinha na fita dele”, e acho que ele perdoou todas as minhas esquisitices do nosso primeiro encontro. Eu amo esse amigo.
Conhecer Nilópolis, Saracuruna, Campo Grande (Big Field), Ilha do Governador foram os primeiros de muitos lugares que faltam conhecer. Depois teve Vargem Grande... alguns lugares pra lá da Ponte Rio-Niterói e por aí vou.
Estive em Manguinhos. Faz tempo que queria ter ido conhecer a tão famosa Biblioteca Parque de Manguinhos, e nada como um bom estímulo, Caco Barcellos estaria por lá. Não tinha como não ir. Um dos jornalistas mais bonitos do Brasil. E foi muito bom vê-lo e ouvi-lo. Mas desci no ponto de ônibus errado. E pela primeira vez na vida, eu estava numa cracolândia. Foi uma das sensações mais estranhas que já senti. E ao mesmo tempo me sentia como eles. Eu não tinha usado nada (eu não uso drogas, mas eu bebo café e outras coisas) e estava tão perdida quanto. Não sabia para que lado ficava a tão famosa, só pra mim, Biblioteca. Porque perguntei para algumas pessoas e ninguém sabia. Sendo que é muito próximo dali. Vou encerrando, porque não tenho muito o que falar sobre esse assunto. A desigualdade mexe comigo de forma desalentadora. Foi uma sensação inesquecível pra minha vida. Meus olhos brilhavam como os deles, por outros motivos. Meu coração batia euforicamente. Meu corpo doía. E incrivelmente não era medo o que eu sentia.
(http://flupp2.hospedagemdesites.ws/)
Sempre andei muito pela cidade do Rio de Janeiro, porque desde meu primeiro contato com esta cidade percebi, no momento que cheguei na rodoviária, que a cidade maravilhosa não era só aquela que passava na TV há mais de 10 anos. Acho que foi em 2001 que estive aqui pela primeira vez e “aprontei todas literalmente” (nunca falei sobre isso aqui e acho que nunca vou contar, é uma história que resolvi apagar da memória). Eu tinha 15 anos e era a menina revolucionária mais chata e rebelde do mundo. Passamos o Natal em Nilópolis e “conquistei” um amigo pra vida. Depois “botei uma gatinha na fita dele”, e acho que ele perdoou todas as minhas esquisitices do nosso primeiro encontro. Eu amo esse amigo.
Conhecer Nilópolis, Saracuruna, Campo Grande (Big Field), Ilha do Governador foram os primeiros de muitos lugares que faltam conhecer. Depois teve Vargem Grande... alguns lugares pra lá da Ponte Rio-Niterói e por aí vou.
Estive em Manguinhos. Faz tempo que queria ter ido conhecer a tão famosa Biblioteca Parque de Manguinhos, e nada como um bom estímulo, Caco Barcellos estaria por lá. Não tinha como não ir. Um dos jornalistas mais bonitos do Brasil. E foi muito bom vê-lo e ouvi-lo. Mas desci no ponto de ônibus errado. E pela primeira vez na vida, eu estava numa cracolândia. Foi uma das sensações mais estranhas que já senti. E ao mesmo tempo me sentia como eles. Eu não tinha usado nada (eu não uso drogas, mas eu bebo café e outras coisas) e estava tão perdida quanto. Não sabia para que lado ficava a tão famosa, só pra mim, Biblioteca. Porque perguntei para algumas pessoas e ninguém sabia. Sendo que é muito próximo dali. Vou encerrando, porque não tenho muito o que falar sobre esse assunto. A desigualdade mexe comigo de forma desalentadora. Foi uma sensação inesquecível pra minha vida. Meus olhos brilhavam como os deles, por outros motivos. Meu coração batia euforicamente. Meu corpo doía. E incrivelmente não era medo o que eu sentia.
domingo, 13 de maio de 2012
terça-feira, 1 de maio de 2012
1º de Maio - aos Trabalhadores
Todos Juntos
(Os Saltimbancos)
Uma gata, o que é que tem?
- As unhas
E a galinha, o que é que tem?
- O bico
Dito assim, parece até ridículo
Um bichinho se assanhar
E o jumento, o que é que tem?
- As patas
E o cachorro, o que é que tem?
- Os dentes
Ponha tudo junto e de repente vamos ver o que é que dá
Junte um bico com dez unhas
Quatro patas, trinta dentes
E o valente dos valentes
Ainda vai te respeitar
Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer
- Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer
Uma gata, o que é que é?
- Esperta
E o jumento, o que é que é?
- Paciente
Não é grande coisa realmente
Prum bichinho se assanhar
E o cachorro, o que é que é?
- Leal
E a galinha, o que é que é?
- Teimosa
Não parece mesmo grande coisa
Vamos ver no que é que dá
Esperteza, Paciência
Lealdade, Teimosia
E mais dia menos dia
A lei da selva vai mudar
Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer
- Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer
E no mundo dizem que são tantos
Saltimbancos como somos nós.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Pai e Mãe
Ainda vou contar sobre essas duas pessoas tão importantes na minha vida. Ainda vou contar. Hoje foi dia de ouvi-los, escutar suas vozes é o que faz sentido em meus ouvidos. Para além do amor que sinto. Para além do viver quase infinito.
...................................
Tem coisas que são difíceis de começar. Ou melhor tem coisas que não sabemos por onde começar. E quando resolvi escrever esse texto sobre os meus Pais me deparei, dentre tantas coisas, com esse difícil começo. E há dias, poucos dias, me vi tentando organizar essa escrita.
Primeiramente, pensei em separar por partes – infância, adolescência e fase adulta – e vi que levará muitos textos para contar todas estas etapas da minha relação com essas duas pessoas que amo tanto nas suas singularidades.
Segundamente, pensei em não citar a participação dos meus irmãos. Mas gostaria de deixar claro que na maioria das situações aqui mencionadas, da influência dos nossos pais sobre mim, dificilmente aconteceram na ausência dos meus irmãos. Fomos criados muito juntos e nossas casas sempre foram pequenas. Só preferi que esse texto fosse especialmente para eles, Adriana e Leoberto, mais conhecido como Beto.
Na minha memória, nunca foram casados. Lembro de um abraço desses dois, eu devia ter uns 4 anos e já era ciumenta pelo meu Pai. Meus pais se separaram definitivamente quando eu tinha 5 anos. Escolhi acreditar que o casamento acabou porque os dois são leoninos.
Acompanhei de perto, não tão de perto, as “maluquices” da minha Mãe, naquela época muitas coisas não eram compreensíveis e até hoje, muitas coisas não o são. Mas a Mãe inventou de frenquentar uma igreja, acho que aos sábados, num lugar muito distante. O caminho para chegar nessa igreja era lindo, subíamos uma escadaria, muitas árvores, muita iluminação. E quando entravámos lembro da Mãe conversando, aos prantos, com uma freira. Acredito não ter sido só uma vez que fomos nessa igreja. Mas tem coisas que realmente não lembro. Talvez essa passagem tenha contribuído para eu me tornar ateia aos 13 anos.
Meu Pai é o homem mais educado que já conheci e o mais charmoso também, não há mulher que não o olhe. Meu Pai realmente é um homem bonito e carismático. Sou suspeita pra falar das minhas referências masculinas (Vô Chico, Maninho Daggo e o Pai). Aos domingos era dia de estarmos com Pai. As vezes íamos aos sábados a noite e dormíamos na casa do Pai, que já morou em algumas casas até a sua ficar pronta, também acompanhamos os momentos de construção da casa aos domingos. Ele passeava muito com a gente. Estar com meu Pai é diversão, sou um pouco assim também, passear não é problema pra mim.
A Mãe! É a mulher mais estudiosa que já conheci. Como gosta de ler. Acho admirável sua vontade e vocação para os estudos e porque não, pela educação. Minha Mãe é militante, crítica, sindicalista e radical. Radical até demais. É a mulher mais trabalhadeira, talvez não para os serviços domésticos, fez isso desde muito cedo que deve ter cansado. Mas, como tem energia para o trabalho. Foi nesse lugar que dedicou sua vida. Foi no trabalho que encontrou forças pra continuar. Foi trabalhando que conseguiu dar o melhor para os três filhos. E é do seu esforço que sente orgulho. Ôh! Mulher generosa e valente.
............................
depois vou continuar contando...
...................................
Tem coisas que são difíceis de começar. Ou melhor tem coisas que não sabemos por onde começar. E quando resolvi escrever esse texto sobre os meus Pais me deparei, dentre tantas coisas, com esse difícil começo. E há dias, poucos dias, me vi tentando organizar essa escrita.
Primeiramente, pensei em separar por partes – infância, adolescência e fase adulta – e vi que levará muitos textos para contar todas estas etapas da minha relação com essas duas pessoas que amo tanto nas suas singularidades.
Segundamente, pensei em não citar a participação dos meus irmãos. Mas gostaria de deixar claro que na maioria das situações aqui mencionadas, da influência dos nossos pais sobre mim, dificilmente aconteceram na ausência dos meus irmãos. Fomos criados muito juntos e nossas casas sempre foram pequenas. Só preferi que esse texto fosse especialmente para eles, Adriana e Leoberto, mais conhecido como Beto.
Na minha memória, nunca foram casados. Lembro de um abraço desses dois, eu devia ter uns 4 anos e já era ciumenta pelo meu Pai. Meus pais se separaram definitivamente quando eu tinha 5 anos. Escolhi acreditar que o casamento acabou porque os dois são leoninos.
Acompanhei de perto, não tão de perto, as “maluquices” da minha Mãe, naquela época muitas coisas não eram compreensíveis e até hoje, muitas coisas não o são. Mas a Mãe inventou de frenquentar uma igreja, acho que aos sábados, num lugar muito distante. O caminho para chegar nessa igreja era lindo, subíamos uma escadaria, muitas árvores, muita iluminação. E quando entravámos lembro da Mãe conversando, aos prantos, com uma freira. Acredito não ter sido só uma vez que fomos nessa igreja. Mas tem coisas que realmente não lembro. Talvez essa passagem tenha contribuído para eu me tornar ateia aos 13 anos.
Meu Pai é o homem mais educado que já conheci e o mais charmoso também, não há mulher que não o olhe. Meu Pai realmente é um homem bonito e carismático. Sou suspeita pra falar das minhas referências masculinas (Vô Chico, Maninho Daggo e o Pai). Aos domingos era dia de estarmos com Pai. As vezes íamos aos sábados a noite e dormíamos na casa do Pai, que já morou em algumas casas até a sua ficar pronta, também acompanhamos os momentos de construção da casa aos domingos. Ele passeava muito com a gente. Estar com meu Pai é diversão, sou um pouco assim também, passear não é problema pra mim.
A Mãe! É a mulher mais estudiosa que já conheci. Como gosta de ler. Acho admirável sua vontade e vocação para os estudos e porque não, pela educação. Minha Mãe é militante, crítica, sindicalista e radical. Radical até demais. É a mulher mais trabalhadeira, talvez não para os serviços domésticos, fez isso desde muito cedo que deve ter cansado. Mas, como tem energia para o trabalho. Foi nesse lugar que dedicou sua vida. Foi no trabalho que encontrou forças pra continuar. Foi trabalhando que conseguiu dar o melhor para os três filhos. E é do seu esforço que sente orgulho. Ôh! Mulher generosa e valente.
............................
depois vou continuar contando...
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